liunas

1.

Quando olhado bem de perto, para dentro da boca, pode-se ver o cuidado com que foi criado, as partes internas todas bem fixas e harmoniosas, as fibras se entrelaçando perfeitamente sem nenhuma falha ou desvio, os tons regulares de claro e escuro, a quantidade exata de poros para arejar, os reforços nos lugares certos, e conforme se afasta, vê-se a entrada da boca, os lábios bem definidos, bem trabalhados em desenhos quadriculados e calidoscópios, formando uma circunferência justa que abandona seus limites para dar início ao corpo, este de curvas bem torneadas, dando toda a postura necessária, cada veia em seu devido lugar, nem mais à esquerda nem mais à direita, todas paralelas entre si, e quanto mais se afasta mais se vê, e já se ganha o cavalete no raio de visão, austero, firme, pronto para suportar a dura tarefa de sustentar o sentido do todo, juntamente com a mão, que não se pode ver ainda, mas o braço sim, aos poucos vai se mostrando, nem longo nem curto, nem grosso nem fino, matematicamente dividido em casas, lado a lado, vizinhas naturais em concordância, e suas veias nada deixam a desejar às do resto do corpo, que é assim que tem que ser, tudo por igual, como se fosse uma só peça, que na verdade é, e afastando-se um pouco mais pode-se ver a mão, com sua curvatura natural para trás, como se estivesse sempre na defensiva, sempre a ponderar, mais pressão, menos pressão, mais uma tarraxada, menos agora, e pronto, todas as cordas postas e afinadas.

Os primeiros passos de Pedro Tristão na música foram, como normalmente são os primeiros passos de qualquer um em qualquer coisa, difíceis, trôpegos e embaraçosos, muito mais um gatinhar do que um palmilhar, e procurava ele isto explicar naquelas desculpas em que todos se apoiam mas ninguém acredita, que não era mais ele aquele mesmo jovem de dez ou quinze anos atrás, que idade não lhe faltava, embora tivesse apenas trinta e cinco anos, e disfarçava seu interesse tentando desconversar, mudando de assunto do mesmo jeito que se muda um caminho que não nos agrada, que não se quer trilhar, pegando um desvio qualquer na estrada e dando uma volta enorme, sem rumo, sem destino, com a clara intenção de se desviar do caminho primeiro, até que alguém lembra os primeiros passos, e então ele volta, sem jeito, cabisbaixo, envergonhado de ter tentado escapar de fininho, em saber que o tempo todo alguém o estava vigiando. Embora sabendo que no seu íntimo, quanto mais Pedro Tristão se colocava disposto e à disposição daquilo tudo, ainda que munido de um pequeno manual de teorias musicais, não conseguia vencer o enigma daquela forma simétrico-linear em que o cocho se apresentava, aquele olhar macio e desafiador de quem já sabe de tudo e do outro lado está, em enorme desvantagem, quem nada sabe e nada pode fazer para essas regras mudar, por mais que se esforce, por mais que se empenhe, por mais que abra mão de outras coisas, por mais que lhe dedique todo o tempo do mundo, deste e de outros que existam ou possam vir a existir.

Embora fosse clara essa imposição do cocho — não sei se imposição deliberada dele, cocho, como se possível fosse um cocho ditar imposições, ou se era essa imposição fruto da imaginação de Pedro Tristão — ainda assim, ele era tentado a passar algumas horas de alguns dos dias de suas várias semanas recolhido com o cocho num canto qualquer da casa — como se tivesse muitos cantos sua casa, apenas quatro e já estava de bom tamanho. Pedro buscava sozinho a solidão, e embora só já morasse, sabemos que é outra a solidão que buscava, aquela que não se pode explicar, aquela que é boa, que tanto pode vir em meio a uma multidão como pode não vir quando estamos sós, aquela angústia de não conseguirmos manter dentro de nós mesmos todas as inquietações que parecem querer saltar peito afora, rasgando nossa carne feito o papel que embrulha o brinquedo e esconde o sonho de criança, que teria chance de trazer o tão almejado sossego para nossos desassossegos. Pedro se esforçava em fazer o cocho contar suas coisas de vida, tentando descobrir a melhor sonoridade, o melhor arranjo dos dedos sobre as cordas, pressionando-as de encontro às casas e nelas tentando fazer morada, procurando posicioná-los, os dedos, próximos aos trastes, às fronteiras desse novo mundo, tirando um ou dois ponteios que ainda tinham um cantar inseguro e indefinido, feito um filho aprendendo a falar, ma… ma…, pa… pa…, só que neste caso era dó… dó…, ré… ré…, e mesmo assim não deixava de ser gratificante um nosso filho emitindo suas primeiras falas, se é que se pode chamar de falas aqueles sons que com nada se parecem, mas para os pais são, e para Pedro Tristão aqueles simples e mal soados dós e rés eram as primeiras músicas de sua vida, verdadeiramente suas, e carregavam um pouquinho de cada alegria que já vivera, cada sofrimento, lágrima por lágrima de cada choro, cada derrota e cada vitória, sendo eles mesmos mais uma, mas ele queria mais, não arredava pé, e continuava buscando um domínio que parecia estar cada vez mais distante, embora sentisse uma evolução a cada sessão, a cada investida um pequeno obstáculo vencido, que embora pequeno era mais um, e não importava o quanto demorasse, pois havia aprendido a acreditar que de pequenas em pequenas vitórias era possível conquistar-se um mundo.

Talvez toda essa tentação fosse pelo orgulho, que era este o seu mais perfeito cocho fabricado, e saiba-se já antes que tarde, embora se tenha dado a entender, que cocho, aqui por estas bandas, tanto é aquela vasilha de madeira escavada que serve para se lavar a mandioca ou servir comida ao gado ou ainda fermentar o cacau, como é o instrumento, de nome completo viola de cocho, cordofone dedilhado, feito em peça única de madeira escavada, e parece ser só por aqui que se faz instrumento desse nome, cocho, e tenho a certeza de que igual a este ninguém há de fabricar, porque é Pedro Tristão o dono do segredo, embora confessado e não descoberto, é o dono desse segredo, e enquanto viver, outra certeza que tenho, da sua boca não sairá, só quando achar por bem, quando a morte lhe estiver a chegar, aí escolherá um sucessor, e só assim será, como lhe foi, que se ele morrer de repente leva isso consigo, como seu mestre faria, que esta arte de fabricar instrumentos, cá por este fim de mundo, não é coisa que se aprenda em escolas, e foi só quando o mestre de Pedro estava prestes a morrer que lhe contou um sonho seu, e deste sonho originou-se uma grande descoberta, mas pela vontade de Deus ele estava partindo, pela vontade do mesmo Deus a quem ele tanto orou e que agora não queria que ele visse seu sonho realizado, ele passava para Pedro Tristão a responsabilidade de justificar toda a sua existência, de fazer honrar aqueles oitenta e cinco anos de vida e setenta de duro trabalho, provando que ele estava certo. Cabia a Pedro Tristão, naquele tempo com doze anos, abandonar a infância, talvez não por completo se tivesse sorte, mas grande parte dela, o que já é uma perda, abandonar as brincadeiras de roda, de pique, os amiguinhos e as amiguinhas que poderiam vir a ser seus amigos e amigas, e quem sabe alguma dessas amigas viesse a ser a senhora Tristão, que pariria um ou mais tristõazinhos. Pedro teria que abandonar tudo isso e percorrer caminhos que nunca havia imaginado, embora os caminhos, mais cedo ou mais tarde, teriam que ser percorridos mesmo, no decorrer da vida, que doze anos não é idade de responsabilidades, mas já aí teve o início precoce do que, pelo rumo natural das existências, só mais tarde viria a conhecer, a vida adulta, com um objetivo muito claro e definido.

Mas comecemos do princípio, que é de onde toda história deve começar.


2.

Vive-se com simplicidade em Liúnas do Norte, que de luxo ninguém nunca fez conta mesmo, e embora não se saiba muito bem porque Liúnas se chama Liúnas do Norte, já que do Sul não existe, julga-se ser por estar situada no Estado de Mato Grosso, e não em Mato Grosso do Sul, pois fala-se que antes de se separarem os Estados, chamava-se Liúnas do Norte apenas Liúnas, e depois que criaram o Estado de Mato Grosso do Sul é que Liúnas passou a ser Liúnas do Norte. E não foi caso decretado por lei, mas alguém que um dia falou, nessa confusão de Mato Grosso do Sul, do Norte, Não, do Norte não, é só Mato Grosso, E Liúnas fica no Mato Grosso do Sul, Não, fica aqui ao norte, Liúnas do Norte. E um falou, outro ouviu e gostou e tornou a falar, e assim foi correndo de boca em boca, Liúnas do Norte, Liúnas do Norte, tem até nome de cidade, e gostou-se do nome. Mas há outra história que diz não ser assim só por gosto e confusão. Dizem os moradores mais antigos de Liúnas que isso não foi assim ao acaso, que tudo não passa de vontades da terra que se manifestam em gentes e se satisfazem, que Liúnas, em solidariedade à dor do Estado acolhedor, pela injustiça de não ter ganho um nome a mais em troca do pedaço de terra que lhe amputaram, resolveu acrescentar do Norte em seu nome, e para isso manifestou-se numa gruta lá longe, depois do rio, enquanto um carpinteiro passava, meio sem destino e sem explicação de estar passando por lá, já que aqueles lados não são caminhos de lugar nenhum. Contam que a gruta disse, em alto e bom som, que daquele dia em diante queria Liúnas se chamar Liúnas do Norte, e que isso se fizesse certo senão só de desgraças seria a terra, e sem coragem de duvidar, o carpinteiro tratou logo de espalhar o acontecido por toda a vila, e depois sumiu não se sabe pra onde. E foi assim, desse dia em diante, que passou a vila a se chamar Liúnas do Norte, e a gruta, Ibiruengara (do tupi Yby, terra; îuru, boca; Nheengara, o medianeiro, aquele que fala), embora nunca mais se tenha ouvido nenhuma palavra. Alguns dizem que não fala mais porque esse negócio de gruta falar não passa de invenção, outros dizem que isso é assim mesmo, a gruta não fala mais por não ter a terra nada mais o que pedir ou reclamar, e sendo assim, melhor é calar do que falar sem ter o que falar. São mistérios de terra, são histórias que se conta e o povo acredita, pois já está contada.

Aqui em Liúnas do Norte, que ora ou outra poderá ser chamada de Liúnas apenas, não há muita preocupação com que caminho seguir, uma vez que ou se trabalha nas fazendas dos coronéis dos arredores, ou se dedica ao artesanato. Tanto aquele como este são trabalhos que vão exigir do homem o tanto quanto ele lhe quiser dedicar. Existem os bons capatazes, dedicados e conhecedores de tudo o que se pode conhecer de fazendas, e destes, um ou outro acaba por conseguir, já quase no final da vida, comprar uma terrinha, e quando esta sorte consegue ser passada de pai para filho, tem-se aí, em mais ou menos seis ou sete gerações se não houver interrupções, um novo fazendeiro. Por outro lado, os artesões não são assim de tanta sorte voltada para a prosperidade financeira, mas há outro tipo de ascensão que quem já provou garante que não se compara com riqueza nenhuma, que o dinheiro pode ser mais promissor mas nem de perto é tão gratificante quanto a impermanência do trabalhar nos elementos da própria natureza, com as próprias mãos, como se fosse uma nossa extensão, uma nossa e tão somente nossa individualidade. Há também os ajudantes de capatazes, geralmente crianças, com um trabalho ainda leve que vai ficando mais árduo conforme vão crescendo, até chegarem à quase escravidão, sem muitos caminhos a percorrer, pois dificilmente serão capatazes, já que seus pais não foram e os pais de seus pais também não. E há ainda o trabalhar nos frutos da terra, tarefa que cabe às mulheres e que o homem pode ou não ajudar, dependendo de sua disposição e vontade, mas deste trabalho não se faz dinheiro, que cada um planta e colhe para seu próprio sustento, a não ser os fazendeiros, que vendem o que a terra lhes dá. Sempre foi assim e parece que sempre será.

Em Liúnas, o ritmo da existência sempre acompanhou o estilo da vida calma e pacata. Quem forasteiro vê, logo diz que aqui não se trabalha, que só se levanta do balanço para a caça quando a fome já é muita, ou para uma caminhada até o lago quando de tanta sede já nem se cospe. E não se pode dizer que é de todo mentira, como seria mentira dizer ser absoluta verdade. Que a região é abençoada com boa terra que dá tudo o que se planta, boa caça, que os rios abundam de água em qualquer época do ano e neles nunca faltou peixe, que o clima é sempre regular e favorável, disso temos que nos orgulhar e agradecer ao bom Deus, que por nós sempre olhou, talvez pelo fato de toda a população de Liúnas não passar um só dia sem ir à igrejinha do padre Frido, que na verdade se chama Fritz, um alemão que chegou aqui já tem muito tempo e construiu a igrejinha quando Liúnas nem era vila, só uma rua de ir e vir, e mais adiante será contado como ele ensinou as coisas de igreja, um tal de catecismo, e digo um tal de, porque foi contado à sua maneira, diferente daquela que se conhece, e falou coisas de Deus que ninguém conhecia, e vai se saber também que ele não chegou aqui por vontade própria, mas conseguiu cativar as pessoas, e hoje em dia, ninguém deixa de dar uma passadinha na sua igrejinha. Mas como dizia, temos uma boa região, que nos proporciona certas comodidades, diferente de outros lugares de que já ouvi falar, mas que aqui se trabalha, se trabalha. É claro que sempre tem um ou outro que nada quer saber de fazer, nem de cuidar de fazendas, nem de artesanato, e ficam jogados por aí, com um cocho debaixo do braço, contando caso e cantando moda o dia todo, e se for pensar bem, até esses a quem chamam desocupados têm a sua importância, pois estão sempre a levar alegria e diversão em suas histórias e canções. E assim era João Simão, um contador de caso, um cantador de moda, que quando lhe perguntavam o que sabia fazer, logo respondia, cantando, da ponta da língua, Duas coisas sei fazer bem, Além de contar casos e cantar, Duas virtudes que nem todos têm, Que é pensar e saber esperar. E era só o que fazia João Simão, pensava, quase o dia todo, sentado debaixo duma árvore, enquanto esperava não se sabe o quê, até que alguém passava e lhe jogava conversa e ele se dava a contar caso e a cantar moda. E alguns ainda diziam que ele não sabia viver.
O que são essas coisas senão mistérios de vida que ninguém poderá nunca desvendar, se os da nossa própria já nos custa, que dirá uns as dos outros, que cada um é o dono da sua e é quem mais a conhece.

Dúvidas à parte, as vidas não se diferem muito em Liúnas. Há de ter sempre uma grande dose de ajustamento em tudo que acontece, não estando preocupados, ao menos a grande maioria — e depois irá se falar da minoria — em mudanças ou em sonhar novos sonhos. O ritual do viver vai avançando, dia a dia, retirando-se o azeite, o palmito e o doce de coco do buriti, aproveitando suas folhas para a cestaria, a palha do aguaçu para se fazer o teto das casinholas feitas de tijolos de adobe, que é aquela mistura de barro, capim e estrume, o mesmo café da manhã durante toda a vida, uma colherinha de guaraná ralado, um copo de café e um pouco de paçoca de farinha de mandioca, e não é que alguém reclame, pois ergue-se as mãos aos céus por se ter o que comer, mas que é o mesmo é, sempre, como também é o mesmo o almoço, arroz sem sal com carne de panela ou pacu, farofa, feijão e vez ou outra um angu de fubá de milho, e a janta, que é o arroz, a carne e o ovo com muito sal e gema mole. Raras variações disso chegam a acontecer, uma maria-zabé, que é aquele arroz com carne seca desfiada ou carne moída, ou caruru, que é o mesmo angu só que regado com molho de carne moída. Não são muitas as comidas que se conhece e menos ainda as que se come, mas como já disse, disso não se reclama, ao contrário, se louva por se ter esses mesmos pratos todos os dias, que pior seria não ter nenhum.

É quase noite, todo mundo já jantou. É hora de pegar as cadeiras da sala e levar pra fora, sentar na calçada, os cochos descem das paredes, que é onde devem ficar, pendurados em pregos, longe das crianças, e prosa vai, um rasqueado aqui, prosa vem, um ponteio ali, a rapaziada andando na praça, as moças de saia curta e colorida, sandálias, os moços de calça, camisa e sapato sem meia, cabeça nua, que esse negócio de usar chapéu só é pudor pra gente velha, e passa-se as horas, resumindo assim a vida dos habitantes de Liúnas. Salvo variações de cada um, cada qual no seu trabalho ou ocupação, esta é a rotina da maioria dos liunenses, até que é chegada a hora de dormir, as crianças pra cama, o casal na sala pra conversar assuntos sérios, as tristezas, os problemas, tudo em voz baixa, recato, palavras breves, suficientes para se entender a dor ou o desacerto do que não há muito a fazer, e finda com o olhar aos céus, esperança e fé na solução que Deus há de dar, e que se não der, culpa não lhe daremos, que Deus não deve lá gostar muito de atribuirmos todos os nossos insucessos à sua má vontade ou não vontade. Amanhã é dia de conversar com padre Frido, Tá, Boa noite, Durmamos em paz, que Deus nos proteja e perdoe.


3.

Nem todos os liunenses são assim de vida tão pacata e dependente das graças divinas, já que toda boa regra necessita pelo menos de uma exceção, que se tiver duas exceções, as exceções viram a regra e a regra a exceção. João Simão é trovador e contador de caso, nunca se deu ao aprendizado de uma profissão, a não ser tocar cocho e contar casos, mas isso, cá por estas bandas, não é profissão, um dia talvez venha a ser, mas ainda não, e dizem as más línguas que esse mal de João Simão vem do pai, Domingos Simão, que também era trovador e contador de caso como ele, e dizem as línguas não tão más que isso de tocar cocho e contar casos são dons, não são coisas que se aprenda em escolas, assim como fazer cochos, embora haja os que toquem moda nas horas vagas do trabalho, mas Domingos Simão só fazia isso, até que um dia conheceu Maria da Graça, menina bonita, ainda moça, já que era de família, prendada e trabalhadeira, chegou até a aprender a ler e a escrever umas palavras, mas caiu na desgraça de conhecer Domingos Simão, rapaz bonito, isso todo mundo via, mas trovador, sem lar, sem emprego, que com seu encanto e dom de dizer palavras bonitas e de rima conquistou o coração de Da Graça, e começaram a namorar, ele com vinte e sete, ela com dezessete, ele já experimentado na vida, muito vivido, e segundo ele, cantando, Minha vida é por aí afora, E vontade de mulher nunca passei, Não importa se moça ou senhora, Desfeita pra casa nunca levei, se bem que casa ele não tinha mesmo, mas como sabemos, isso é tão somente modo de falar, ou melhor, modo de cantar, e Maria da Graça, às avessas de Domingos Simão, moça direita, sem antes ter conhecido homem, prendando-se enquanto o príncipe encantado não aparecia, sonhando com um príncipe que nem precisava ser príncipe muito menos encantado, bastava ser bonito e direito, bastava ter aquele algo de diferente pra acender uma chamazinha dentro do coração tão reprimido de vontades, desejos e sentimentos, aquele algo que nem ela nem outra qualquer saberia explicar, mas ao se deparar com ele não teria dúvidas, que o coração haveria de acusar, delatar, palpitar e precipitar, tanto precipitar que, no caso de Maria da Graça, que queria nem tanto um príncipe mas um rapaz bonito e direito, precipitou-se no bonito e não quis mais saber do resto, que direito Domingos Simão não era e nunca virá a ser, ou viria a ser, já que não se sabe nem se hoje está vivo ou morto, e não foi por falta de aconselhar, que todos queriam abrir-lhe os olhos, mas o que parece ninguém saber é que o coração não tem olhos nem ouvidos, e esse gostar imenso era alheio à razão de Maria da Graça, tanto era alheio que namoraram debaixo de árvores, no meio do mato, atrás das casas, sempre às escuras para não darem com a vista de outros, e juras de amor e vida comum Domingos Simão lhe fez, e ela, já na idade do casamento, rendeu-se aos desejos de Domingos, e de sua semente fez plantio, e como fruto veio a colher João Simão, que depois se veria, foi dar como o pai, mas Domingos Simão não esperou para ver que fruto daria Maria, pois não tinha morada certa, e disso deveria saber Maria da Graça, se é que não sabia, e partiu Domingos, num dia de domingo, pra todo mundo ver. E lá no fundo, se algum dia Maria da Graça chegou a pensar que por ela um trovador endireitaria a vida, foi por pouco.

E viveu Maria da Graça sem graça pelo resto da vida, que não foi longa. Por amor e esperança de que Domingos Simão um dia voltasse, batizou o filho com o sobrenome do pai, Simão, e como nome escolheu João, fadando-o já pelo nome, portador da tribulação toda do mundo, depositário invito das maiores pragas contra a humanidade, que Jesus não mesurou o coração de seu apóstolo com a amargura da revelação e, enviando-as pelo seu anjo, as notificou a seu servo João, desabafou o que conhecia, e conhecia por ser Ele o Filho, e João passou a Filho também, assim como Cristo, meio-Filho, talvez, quase um Irmão, diferente dos outros, pois irmãos todos eram e somos, um meio-Irmão, então, mas ao escolher Maria o nome de João, já selava com todos os sete selos a sua vida, e ficou João Simão, já dando rima o próprio nome com o sobrenome, e dizia ela que o filho daria no que era o pai, trovador, mas que seria bom no que ele fora ruim, que serviria isso para desmistificar os maus exemplos de trovadores, que poderia aí surgir uma nova raça, sonho de gente humilde, onde já se viu querer criar uma raça se as que já existem não se dão conta, mas não viveu Maria da Graça para ver que sua profecia se concretizaria, não no que diz respeito a uma nova raça, mas no que diz respeito só a João Simão, trovador de bem, graças aos sete anjos, que viram graça no nome rimado e esqueceram o presságio do apóstolo, achando que aquele menino daria para cantar as belezas da vida. E João Simão é diferente mesmo. Que se saiba, é o único trovador que tem morada certa, e embora viva sozinho, é de bom caráter e nunca deu trabalho a ninguém, que graças a Deus tem uma boa horta no quintal do fundo da sua casinha, e de lá tira seu alimento, o arroz, a mandioca, a beterraba, algumas folhas, e diz que de nada mais precisa na vida, em suas palavras, cantando, Vivo bem sem ninguém, Melhor que muitos, aposto, Como o que planto, trabalho não me vai bem, Que posso fazer se é de cantar que gosto, mas já fiquemos sabendo que João Simão tem um desejo muito íntimo e secreto, um sonho, mas filho errante de trovador e ele próprio trovador, não é assim muito bem visto e poucos fazem questão de sua amizade, dizendo que de terra podre não há de sair bons frutos, por mais que se plante, por mais que se adube, mas João Simão ainda saberá mostrar seus dons de trovador diferente, que muita coisa boa tem no coração, para mostrar e para dar, e quem sabe, quando isso vier a acontecer, nesse dia, ele consiga se realizar.


4.

Como toda boa cidadezinha, Liúnas do Norte também tem uma igrejinha, muito bem construída, por dentro e por fora, e os vinte bancos onde cabem pouco mais de seis pessoas cada são suficientes para acomodar os fiéis, exceto em dias de missa, aos domingos, que muita gente acaba ficando em pé. Por dentro as paredes pintadas em tom de azul claro, com uma bela imagem desenhada no teto, uma estátua de Jesus Cristo crucificado, em tamanho natural — motivo de fervorosas orações — e mais algumas estatuetas de outros santos e santas, em menor tamanho e importância. Na entrada, como não poderia faltar, o reservatório de água benta para que os fiéis se abençoem tanto no entrar como no sair da casa do Senhor. Há também o sino, orgulho dos liunenses, que ajuda em muito para que os fiéis não esqueçam da missa, como se houvesse muitas outras coisas para se fazer aos domingos, e o padre Frido, que na verdade se chama Fritz Döier, e que, ainda pela verdade, não é padre coisa nenhuma, mas isso ninguém pode dizer, que tamanha devoção tomou conta de seu coração que até Deus duvida que este homem não seja nas ciências e nas artes de padre estudado e iniciado. Fritz chegou aqui fugido de seu país, onde era caçado por crime de sonegação, prostituição, jogo e algumas mortes, e ainda deve ser, que esses alemães, dizem, são demais cruéis, e essas coisas naquela época poderiam levar um homem à forca, se é que ainda não levam. Quando chegou aqui, sabendo que poderiam vir atrás dele, Fritz fez-se de padre, construiu uma igreja com a ajuda dos poucos fiéis que conquistou com algumas histórias sobre Deus e Diabo que aliás não se pode achar em livro algum, já que eram fruto da imaginação um tanto atormentada de Fritz. Vamos ver como era uma delas, que vale à pena, só uma, que com o tempo vê-se mais.

Contou Fritz, quero dizer Frido, já que foi com esse nome que se apresentou, que Deus tinha um anjo que era o Seu preferido, mas que um dia esse anjo achou que não precisava mais obedecer as ordens de Deus, que ele era capaz de fazer tudo que Deus fazia, e pensando assim, rebelou-se contra o Criador, juntou mais alguns insatisfeitos e armou um verdadeiro motim. Deus, ao invés de sumir com o rebelde num simples estalar de dedos, que é o que se esperava, preferiu ser benevolente, afinal, Seus outros anjos poderiam se intimidar com tal demonstração de poder absoluto sobre suas existências, e acabou por expulsá-lo de Seu reino, que fosse ele cuidar de construir o seu próprio, já que nesse cargo de Deus não havia lugar para dois. Assim, vieram a existir o inferno e o Diabo. Vendo-se o Diabo dono de um reino só dele, trabalhou muito e arduamente, construindo e plantando tudo às avessas de Deus, que acabava resultando no mal, nas trevas, já que o bem e a luz plantava Deus, que não queria concorrência. E foi o Diabo plantando o mal pelo mundo, sem descanso, sem medir esforços, e como resultado de tão devotado trabalho, viu-se o mal infestado no coração dos homens, de quase todos, e foi aí que Deus, vendo que estava a perder terreno, tratou de convocar um encontro com o Seu rival, nem no inferno nem no paraíso, mas num lugar neutro, no meio do deserto, e quem por ali andava naquele dia, jura ter visto duma nuvem descer uma escada dourada, com anjos desenrolando um tapete azul-divino, e um ser grande e brilhante, com longas barbas e cabelos compridos descer por essa escada e baixar oásis, e o rosto ninguém pôde ver, mas viram ainda as areias ficarem vermelhas e esquentarem ainda mais, e ao lado desse oásis surgir duma bola de fogo um ser também grande, mas com longos chifres e um rabo saído do final da espinha, e depois viram eles se abraçarem antes de sumirem no nada, mas é bom sabermos que na verdade não sumiram, apenas se fizeram invisíveis para terem mais privacidade, que esses encontros entre Deus e o Diabo não podem ser presenciados por mortais. Depois de assegurada suas privacidades, Deus parabenizou o Diabo pelo belo trabalho, belo no sentido do esforço, da dedicação e da determinação, ao qual o Diabo agradeceu dizendo que devia a Ele, Deus, tudo que sabia. Conversou-se mais uma ou duas coisinhas, Deus perguntou como ia o inferno, o Diabo disse que ia bem, muito trabalho e coisa e tal, Deus disse-lhe que não é fácil cuidar de um mundo todo, aí o Diabo perguntou sobre o paraíso, Deus respondeu que ia levando como podia, até que tocaram no assunto principal daquele encontro, que era discutir que destino teria o mundo, e reclamando maior números de fiéis, Deus contou ao Diabo da Sua idéia de por no mundo um filho Seu, para levar a Sua palavra em peregrinações, para fazer com que os homens se redimissem dos seus pecados, e que para isso ter sentido, ele deveria morrer na cruz, deveria sofrer as conseqüências na própria carne, para que os homens se convencessem do poder das decisões divinas, e o Diabo duvidou, dizendo que sendo Ele Deus, do bem, não permitiria que um filho Seu morresse na cruz, honrado ou não, que isto seria apelação, que deveria haver outro jeito, menos doloroso para todos, mas Deus, que já tinha tudo planejado, com um gesto das mãos fez do ar uma imagem do futuro, e o Diabo viu, espantado, quanto sangue se derramaria, quantas pessoas sofreriam e quantos morreriam em Seu nome, para que aumentasse Seu reino, e por fim, viu quem seria Jesus Cristo, rapaz magro, rosto sofrido, bondoso e inseguro, que na verdade só queria ter uma vida normal, casar e ter filhos, trabalhar, ser feliz, mas não, tinha que levar a palavra do Pai, e acabou pregado numa cruz, com pregos assim largos em sua carne viva, anjos e umas poucas pessoas a chorar sua morte, como se imaginando se tudo isso teria valido a pena, e vendo isso o Diabo se encheu de compaixão e disse, Se for assim, renuncio ao meu reino e volto Contigo aos céus, desfaço tudo o que fiz, ilumino o que escureci, abençôo o que amaldiçoei, e tudo será como antes, só que agora, ao invés de ser eu o Teu primeiro anjo, serei o último, não me importo, e tudo será como antigamente, antes de que eu Te traísse, e não será necessário tanto sofrimento, tanta desgraça em Teu nome, e Deus, virando-se para o Diabo diz, Muito obrigado, Lúcifer, que este era o nome dele enquanto anjo e continuou sendo, Mas de que serviria o bem sem o mal, e o resto se fez como a gente conhece.

E o povo, simples, não se achando digno de julgar se era verdade ou não as histórias do padre Frido, acreditava, pois no mais, já estavam contadas mesmo.

Mas nem só de histórias fantásticas, críveis ou não, era feito Fritz, mas de um bom coração também, sempre disposto a ouvir seus fiéis com uma calma e uma paciência só dele, e quando terminava de ouvir se dava a falar, uma coisa mais bonita que a outra, reconfortante, cheia de esperança, coisas que fazem a gente pensar em nossas vidas, em nosso mundo, na nossa condição de ser humano, filhos de um mesmo Pai, e conhecendo Frido difícil é acreditar que tenha se envolvido com estas coisas de prostituição, jogo e morte. Coisas da vida, e ninguém será capaz de desvendar tamanhos mistérios. Mas o que nos importa é que padre Frido, como ficou aqui conhecido, é uma pessoa boa, que construiu uma igreja que o lugar carecia, e nela passou a ensinar o catecismo, que nada mais é do que os ensinamentos de Deus e da igreja, que ele lê de um livro escrito numas letras que ninguém entende, só ele, e passa para as letras que nós entendemos, embora só alguns, já que existem aqueles que não tiveram a sorte de ter alguém pra ensinar a ler e a escrever, que por aqui, essas coisas de ler e escrever não se aprende em escolas, aliás, melhor agora antes que tarde, não há escolas em Liúnas, e mesmo que tivesse, não teria quem ensinasse, nem muito o que ensinar, além de não ter quem quisesse ou pudesse aprender. Mas tudo ao seu tempo. Quem sabe essas coisas de alfabetização também aqui venha a ter.


5.

Outra pessoa de que falei fazer parte daquela minoria que não tem a vida daquele jeito simples e linear como maioria dos liunenses, é Pedro, o Tristão, que embora não conheça nenhuma Isolda, vive bem e agradece. Pedro Tristão, que dos primeiros anos de vida não tem muito para se acrescentar que possa vir a contribuir com a história que se desenrola, apenas que teve por mãe Jurema Tristão, por pai de coração, cria e nascimento, teve Gonçalves Tristão, que quando Jurema e Gonçalves foram se casar, padre Frido abençoou-os sem saber que Jurema já ia grávida, com Pedro no bucho, e por isso a bênção que era destinada para dois acabou tendo que ser dividida por três, e talvez seja por isso que Gonçalves tenha ido cedo, para deixar mais bênçãos ao filho que vinha. Por pai de coração, Pedro teve também Antônio Constante, mestre e conselheiro, que aos treze anos o iniciou na arte de fabricar cochos, e Pedro aos quinze viu Constante morrer, só é pena que não deu tempo de aprender a tocar cocho, mas deu tempo de Constante lhe confessar um segredo, muito importante para ele, Antônio Constante, nem tanto para Pedro Tristão, ainda, que se realizado justificaria sua vida, e Constante prometeu que ficaria lá do céu olhando por Pedro, iluminando-o, com seus olhos pequenos e azuis, e é só assim mesmo que se pode explicar o fato de não ter sentido Pedro Tristão a necessidade de arranjar outro mestre, que com apenas dois anos de aprendizado, quando se leva no mínimo cinco senão mais, já era capaz de fabricar seus próprios objetos e mais tarde seus próprios cochos, sem outro a lhe ensinar, que o certo seria, ao perder o mestre tão cedo, procurar outro, e não foi por falta de proposta, não foram poucos os que se ofereceram, uns apenas com a intenção de aliviar-lhe a dor da perda, outros por boa vontade da iniciação, mas algo não deixava Pedro Tristão aceitar, que de todos ele sentia já saber muito mais, embora não fizesse ainda o que eles faziam, mas já sabia mais, e recusava, acreditando nas últimas palavras de Antônio Constante, que foram Faça da sua vida a sua maior obra, que dela sempre poderá gozar, e depois de conquistá-la, faça da sua obra a sua vida, que ela lhe dará aquela pena que todos necessitam para viver, e embora sempre tenha adotado essas palavras, não foi pouco o tempo que ficou Pedro Tristão sem entender de que pena Antônio Constante falava, quebrando a cabeça na esperança de desvendar esse jogo de palavras, arrumar-lhes um sentido em sua cabeça ainda pobre de experiência e de vida, descobrir o sentido de frase tão simples que parece não dizer mas diz, que era Constante homem de muito saber e muito ensinar, Se pudesse eu ter esse dom, já teria iniciado outro nas artes do artesanato, mas quem sou eu, ainda mal saído do regaço da mãe, modo de dizer de Pedro Tristão, que mais de trinta anos já tem, mas comparado ao seu mestre, pouco sabia. E daí pra frente foi só trabalho.

Se vale a pena falar, falemos aqui, que mais tarde pode não caber, sobre Antônio Constante, um pouco ao menos, que importante personagem foi para a vida de Pedro Tristão, na sua formação, na sua concepção de homem. Era homem forte, Antônio Constante, bonito e mulherengo, no bom sentido, que de todas as mulheres que desposou muito bem cuidou, embora não levasse mais de três anos com cada uma, e não mais de um ano sozinho, e disso falava muito e abertamente, não se importando com o que diziam, que não conseguia segurar uma mulher por muito tempo, que mulher nenhuma o agüentava e coisa e tal, pois sabia que tudo não passava de mentira e inveja, pois cada uma das ex-mulheres de Antônio Constante, se perguntadas sobre o ex-marido, diriam em uníssono, Um bom homem e ótimo marido, pena que não me quis mais, e todos sabem disso, mas precisam falar de alguma coisa, que esse negócio de experimentar muitas mulheres não é comum, e tentando isso explicar, dizia Antônio Constante Não consigo me adaptar à uma mulher só, e para não cometer a bigamia, termino tudo, que o homem precisa mesmo dessa variedade de mulheres e o mais importante, precisa variar e intercalar a companhia com a solidão, diferente da mulher, que vive para achar o seu homem, já que geralmente não consegue viver só, e se vive, o faz sem aquela graça que lhe é natural, vive amarga e infeliz. Ouvindo essas histórias, que são histórias que o povo ainda conta nas rodas de cocho mesmo depois de ter morrido Antônio Constante, é que João Simão pensa Que homem sábio era esse Constante.


6.

É essa a vida que se leva em Liúnas, Liúnas do Norte, não nos esqueçamos, e é sorte não pensarem em coisas muito complicadas os liunenses, complicadas como o que fazer da vida ou para que ela serve, pois se nem mesmo aos anjos isto é revelado, como conta padre Frido, que Deus, conversando com um dos seus anjos, foi perguntado sobre o sentido da existência, para que havia Ele criado o homem e os anjos, o que pretendia com isso tudo, e Deus virou-se para o anjo e disse Se te conto aqui o que pretendo, não quererás cumprir tua parte, e o anjo calou, e assim tem que ser, que se fôssemos pensar, pensar pra valer, chegaríamos à conclusão de que nessa nossa vida são poucas as coisas que a justificam, pelo menos enquanto não conhecemos as vontades divinas, e que são poucas as coisas que a fazem valer a pena, não que valha uma pena, que isto é tão somente modo de falar, e já mais tarde fiquei a saber que é esta aquela pena que Antônio Constante falou, e por serem poucas é que devemos agradecer, cada um ao seu modo, por termos recebido a graça da luz que nos fez encontrar uma pena, ao menos uma, que uma já nos basta e já está de bom tamanho, embora outros mais afortunados acabem por receber luzes de maior intensidade no brilho, o que lhes permite encontrar duas ou três, senão mais destas tão raras penas que cada vida faz por valer, e nunca saberemos o por quê dessa discriminação, que se ao menos soubéssemos como Ele avalia estas coisas, nos empenharíamos mais ainda, mas nunca teremos o conhecimento de quais são os critérios que Deus se vale para iluminar os caminhos, e já que fé e louvor todos temos, devem ser outros os valores que Ele releva. Bem, com certeza deve ter Ele um bom motivo, e uma boa justiça também.

E assim eram todos em Liúnas, caçadores de penas, qualquer pena, não importando muito por que luzes eram iluminadas, que não era raro aqueles que queriam pegar uma brecha no brilho das luzes de outros, mas tudo sem maldade, só pra ver se encontrava mais rápido a tal pena, que maldade mesmo é coisa que ainda não chegou em Liúnas, que todo liunense é puramente honesto, ingenuamente honesto até, diria quem na vida é mais vivido e conhece as espertezas das cidades grandes, diria também que são todos tolos, bobos, pois onde já se viu não se aproveitar para entrar na vendinha do seu Joaquim quando ele sai pra almoçar e deixa as portas abertas, sem ninguém para olhar as mercadorias, ou ainda, achar dinheiro na praça e sair perguntando de um em um se não é ele o dono, e ainda por cima respondem estes Não, não é meu não, e só o dono mesmo é que irá responder É meu, nem tinha reparado, devo estar com o bolso furado, muito obrigado João Simão, Não há de que, Zé Silveira.

Zé Silveira trabalhava nas terras do coronel Felisberto Gomes Ventura da Boa Morte, e percebe-se que era rico o coronel já pelo nome, que nunca se viu por aqui pobre ter cinco nomes, pra quê, se muitas vezes dois já são demais, e acaba-se esquecendo o segundo, que um só já basta pra diferenciar e poder chamar, e chamava-se Boa Morte o coronel, dizem, é por ser demais cruel, por ter parte com o Diabo, por devorar a carne dos mortos — dos muitos que morreram trabalhando em suas terras — e não deixar senão seus ossos, que à noite pinta na cor azul, puxando o preto, e, como aquelas moscas que ficam em cima da carniça, ele voa satisfeito, mostra seus dentes, sua pele de abutre, e se estende sobre sua poltrona, de onde dá suas ordens.

Zé Silveira pega cedo no trabalho, as três e meia, quando o sol nem pensa ainda em nascer já nasce o Zé, e trabalha, trabalha muito, carpe, planta, colhe, suja, limpa, constrói, destrói, leva, traz, põe, tira, arruma, desarruma, ordenha, pasta. E quando o sol já vai morrer, lá do outro lado de onde nasceu, se não morre o Zé é por pouco, que tem outras bocas que dependem do seu suor pra poderem se alimentar, e continua trabalhando, que só pode parar bem mais tarde, lá pelas oito da noite. E ele ainda diz que é sorte morar numa casinha lá na fazenda mesmo, que é só acordar e caminhar uns poucos quilômetros que já está no trabalho, que quando termina, se morasse longe, era capaz de cair no meio do caminho e adormecer por ali mesmo, pois mal consegue caminhar de volta pra mãe Lucinda, pros dois irmãos pequenos, Ademiro e Lucélio e pra mulher Adelina, que o espera com uma bacia de água quente pra fazer a salmoura nos pés cansados, quase em carne viva, um prato de comida e a cama arrumada, que já chega praticamente dormindo o Zé, até o banho é deixado pra mais tarde, pra daqui a pouco, quando levanta e começa tudo de novo, todos os dias, só tendo folga na hora da missa de domingo, e olha que teve que insistir muito pra que o doutor coronel Felisberto concedesse essas horas sem descontar da féria, Onde já se viu deixar de trabalhar para ir em missa, dizia o coronel, deve ser por isso que se fala tanto que é dos pobres o reino dos céus, porque os ricos não têm tempo pra prestar atenção nessas coisas de Deus, de piedade, compaixão, humildade, justiça, igualdade, amor, fraternidade. Hoje não quero comer não, mulher, não me sinto bem, É canseira homem, converse lá com o doutor coronel e peça a ele um dia de descanso, Dá não, se eu fraquejar ele me manda embora, e aí, o que eu vou fazer, onde a gente vai morar, Mas pra que tanto trabalho, homem, ninguém trabalha como você, Deixe, você vai ver, daqui uns anos nós já teremos nossa terrinha, e aí tudo vai melhorar, Amanhã é domingo, bem que você podia ir trabalhar só depois da missa, a gente assistia a primeira e depois… Zé, tá me ouvindo, Zé… Não ouvia. Zé Silveira já dormia, e enquanto dormia ainda arrumava forças para sonhar, que só sonhando mesmo é que podemos ser o que não somos ou o que gostaríamos de ser, sonhar com as outras coisas da vida que não o trabalho, que o trabalho dele não é bem dele, isto é, não é o que ele realmente queria, a verdadeira pena de Zé Silveira, já que por aqui se trabalha no que se nasce, essa pena de trabalhar nas terras do doutor coronel Felisberto ele achou quando iluminada pelas luzes do pai, que já se foi mas deixou umas economias, e ele lembra As últimas palavras de meu pai foram para que eu tomasse conta de minha mãe e de meus irmãos, que eu assumisse o papel que era dele mas que ele nunca havia encenado, aconselhou-me a procurar uma mulher de quem eu gostasse de verdade e constituir uma família, e isso eu já fiz, que é Adelina, que logo vai desembuchar um rebento. Seu hálito cheirava a coisa já morta. Perguntei-lhe se eu deveria trabalhar como ele e juntar o dinheiro pra tentar comprar uma terrinha, pra um dia, quem sabe, poder plantar nossos próprios frutos, pastar nossos próprios animais, e nesse instante, meu pai que tinha até então os olhos fechados, abriu o olho esquerdo que ficou enorme como se incorporasse o tamanho do vizinho, e apenas com esse olhar, fez-me um doloroso apelo, como quem diz “cumpra tua missão”, e dele se acercou tão humilde a morte que lhe pôs uma única lágrima, brilhante, curta e rápida, no canto do olho. E foi aí que eu segurei sua mão, e olhando pela janela, lá onde o sol morre, confessei meus pecados, me desculpei por todas as coisas que não havia feito, pelos nãos que eu disse, por capricho ou por preguiça, quando deveria ter dito sins, e fiquei horas com o olhar solto na vermelhidão, as mão frias do meu pai acalentando os meus medos, até que dei-lhe as costas e saí do quarto, devagar.

Adelina vira pro lado, ajeita a barriga já grande numa posição confortável para ela e para o bebê que estava para chegar, e pensa nas noites melhores que hão de vir, quando o Zé não tiver mais que trabalhar tanto assim, e se imagina passeando na praça com o Zé, de mãos dadas, conversando com o pessoal da vila, que aqui onde moram não tem ninguém pra conversar, cantando moda e dançando nas rodas de cocho, até tarde, e depois voltar pro lar, deitar na cama, sem pressa, e trocar carícias, Deus que me perdoe mas que eu estou precisando estou, e não é que esteja desejando outro não, é o Zé mesmo, mas ele nem se agüenta em pé, coitado, que é que eu vou fazer, é só de vez em quando mesmo, pra ficar prenhe, encher a barriga e só, e se eu ficar mais tempo assim acabo ficando louca, acabo agarrando qualquer um que me aparecer na frente, até o cachorro, ai meu Deus do céu, me perdoa, prometo que amanhã vou à missa e me confesso com o padre Frido.

E pensando assim, Adelina vira de lado na cama, olha para o teto imaginando o céu, as estrelas, o amor, o Zé, e suspira, entregue a heresias.


7.

É certo que nada tenho eu a reclamar, que uma daquelas raras penas já encontrei, se bem que não é toda minha, esta que estou a fazer, contar uma história de forma escrita, que é bem diferente do que contar uma história de forma falada, por mais que sejam as histórias no todo iguais, nas de forma falada são outros os vícios e outras são também as técnicas de se contar, e dessas artes de contar histórias de forma falada não sou bom conhecedor, isso é lá com João Simão, mas de contar histórias de forma escrita, disso eu sei um pouco, e parece que mais aprendo conforme as palavras vou escrevendo, que ao escrever posso traçar um fio de raciocínio ou de caso e largá-lo no meio do caminho, inacabado, por sua própria sorte, e já outro começar, original de outras bandas de pensamento, que também este vai se desenvolver o quanto eu queira que se desenvolva, que posso de repente largá-lo, findo ou não, para retornar àquele anterior ou ainda um novo começar, e trançar seu desenvolvimento com outros já começados ou totalmente traçados, e só parar quando achar por bem terminar a história, por puro prazer de terminar ou por não ter mais nada para contar, e depois, então, ter que achar outras histórias para continuar justificando essa minha pena, ou, se de contar histórias já me sinto farto, ter que achar outra luz que me leve a encontrar outra pena, para que possa fazer novamente minha vida valer, e assim, aos poucos, resumir nossas vidas, que, salvo variações de cada um, cada qual no seu trabalho ou ocupação, é a rotina da maioria das pessoas, não só em Liúnas, mas em todo lugar, procurar uma pena para a vida valer, pois aquela anterior já cumpriu seu papel. E assim vai-se vivendo, até que nos é chegada a hora de não enxergar mais luz nenhuma, e para uns isso pode demorar muitos e muitos anos, mas para outros pode acontecer cedo, que ainda estes serão mais afortunados que aqueles que nunca chegam a enxergar luz nenhuma, pura cegueira, e quando nos é chegada a hora de não conseguir enxergar luz alguma, por nunca ter havido luz ou por já ter chegado a hora de não mais enxergá-las, não se é mais possível encontrar as penas que Antônio Constante falou, e é aí que se começa a perder o ânimo e o sentido do viver, e daí para a morte é um instante, um piscar de olhos mais demorado, mais cansado, mais preguiçoso, e quando nos damos conta já não podemos mais abri-los, os olhos, já que não fomos feitos para durar mesmo, e essa angústia acaba deixando os defuntos com aquela expressão de felicidade e infelicidade num mesmo rosto — como se fosse possível os defuntos terem expressões de felicidade ou infelicidade. E dizem os mais antigos que é o rosto da felicidade pelo morrer e o da infelicidade pelo viver sofrido e sem tantos motivos, o sorriso aberto, esticado nos lábios já sem cor mas bonitos, a serenidade na face, as mão cruzadas sobre o peito, as flores catadas na beira do regato a enfeitar o caixote de madeira feito às pressas, que luxo não se tem em vida quanto menos em morte, e os olhos tristes, que embora fechados sabemos estarem molhados por lágrimas de uma vida sem muito vingar, sem grandes feitos a mais do que constituir uma família e trabalhar para seu sustento, e ficam-lhes, dizem, as duas expressões no rosto por estarem elas a brigar entre si, querendo ambas fazerem-se prevalecer naqueles últimos momentos frente outros olhos vivos.

Mas o que são essas coisas de morte senão todo o sentido das nossas vidas, e embora já muito falado, é nossa única certeza, a morte, mistério que ninguém poderia em vida explicar, e os que já morreram não podem nos contar, não por estarem mortos, que querendo dá-se um jeito, querendo arruma-se uma maneira de as almas baixarem ou subirem à terra, dependendo de onde foram merecer a morada eterna, mas não nos podem contar por serem essas coisas segredos de além-vida, como já nos disse em forma de história padre Frido, e tanto Deus como o Diabo reservam esses segredos para quando for chegada a hora. Pensando assim é que nos vem uma angústia, ou sei lá que nome se dá a esse nó no peito que parece apertar tanto que chega à garganta e faz brotar água dos olhos sem mesmo a gente querer, nos faz pensar na vida e na morte de uma maneira diferente daquela que padre Frido nos ensina, como se obter a serenidade se deixarmos tantas coisas que temos verdadeira vontade por fazer, como não ficarmos tristes com esse podar repentino, embora ganhando um lugar nos céus, que é o que esperamos, se sabemos que esta existência acabou, e mesmo que outra vier de nada lembraremos, do que fizemos e de quem deixamos, e o coração aperta mais, e as cataratas da alma não conseguem se conter. E pensando assim, vira-se para o lado na cama, olha-se para o teto imaginando o céu, as estrelas, e suspira-se, aspirando uma vida mais justa e menos sofrida, já que eterna, nos céus, e chega-se a questionar, e às vezes até mesmo a lamentar, que o ato de tirar a própria vida tenha sido abominado pelas leis de Deus — padre Frido já nos contou que Deus abominou o suicídio, pois sendo a morte a única maneira de se chegar ao Seu reino, temia Ele que não restasse uma só criatura viva na Terra, já que uma vez que lhes batesse à consciência que há um lugar melhor para se viver, no caso o paraíso, todos tirariam a própria vida, abreviando assim o tempo de espera para a eternidade divina, e hoje é sabido, pois nos foi ensinado, que ainda assim ganha a vida eterna o suicida, porém nos fogos do inferno.

É pensando assim que vira-se para o lado na cama, olha-se para o teto imaginando o céu, as estrelas, e suspira-se, entregue a heresias.


8.

Pedro Tristão sempre levanta cedo, prepara o café e já passa a trabalhar seus artesanatos. Não se queixa, nunca se queixou, nunca se queixará, não sendo raro o dia que nem chega a dar com a cara pra fora da janela, pra uma olhadela ao menos para admirar o belo amanhecer de Liúnas, o sol, muito devagar, se acercando do horizonte, sentir na cara a frescura da manhã, as vibrações da luz da alvorada ainda sem cor definida, os galos que percebem sua chegada e se levantam para indagar seus movimentos. Esse tempo único forma o quadro belo e sutil que é cada manhã, mas para Pedro, o sentido de tempo não tinha um tamanho ou uma distância determinada, não tinha pressa nem calma, nada que se pudesse medir ou calcular, mas uma coisa indefinida, sem lugar de começo e parada, que só com o desejo era capaz de afastar e aproximar, de trazer e levar. E mesmo isso não impedia Pedro de alimentar seus sonhos, que embora já não fossem muitos, ainda eram vivos e disfarçavam sua solidão, cada vez mais presente. Trabalhava de segunda a segunda, só tendo folga nos domingos de manhã, para ir à missa, que domingo à tarde chegava Adalberto Cantado, vindo da cidade pra comprar seus trabalhos, e pouco conversavam eles, dizendo Tarde Pedro, Boas, Cantado, Tem muitas peças pra hoje, Tenho sim, andei fazendo umas cadeiras de descanso e umas mesinhas, tem também uns baús, uns caixotes, Bom, o pessoal da cidade gosta muito do seu trabalho, Obrigado, Bem, toma aqui o dinheiro e até semana que vem, Até.
Pedro vez ou outra passava em frente à igrejinha do padre Frido. Vezes parava, vezes seguia, quando alguma coisa lhe incomodava, algo que não pudesse mais suportar, quase a lhe arrancar o coração do peito, aí sim, dava uma paradinha, trocava duas ou três palavras com padre Frido, duas ou três palavras que poderiam demorar tanto dez minutos quanto duas horas, dependendo do grau de sofrimento colocado na fala, que pode provocar um sermão com maior ou menor influência por parte de padre Frido. Fora isso, como já disse, Pedro freqüentava as missas dominicais assiduamente, onde ouvia padre Frido que sempre começava dizendo Estamos todos aqui reunidos em torno da mesa eucarística como irmãos e irmãs para celebrarmos nossa privilegiada posição de filhos de Deus, que se Deus necessitar de braços para ceifar a messe, daremos os nossos, os dois até, que todos somos frutos da Sua messe. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e todos respondiam, Amém.

E o mundo, bola grande como é, com seus rios e mares, suas terras formando continentes, suas florestas e mais quem na terra mora, homens e animais, os que vivem no mar e os que vivem no ar, as nuvens e tudo o que possa existir e ainda nos é mistério, com tudo isso, imaginamos como deve pesar o mundo, e o que devemos pensar quando alguém nos diz que carregamos o mundo nas costas, impossível, que todas as forças juntas ainda não seriam suficientes para levar o mundo a lugar nenhum. Caminhava Pedro Tristão pela rua da praça, a pensar estas coisas de mundo, só a imaginar, que de Liúnas nunca saiu, e daqui, o mundo não é mais do que uma enorme linha no horizonte, que separa ou junta a parte verde das matas com a parte azul do céu, onde o sol se deita, alaranjando o que resta de claridade até a escuridão, dando espaço para a lua e as estrelas.

Outro que acorda cedo todos os dias é João Simão. Não para o trabalho, que trabalho ele não tem, mas para admirar aquele espetáculo matinal que falamos há pouco, para tomar o seu café, para o cuidado com seu cocho e para seu quintal, que é de lá que come. Disso não se queixa, nunca se queixou e nunca se queixará, aguando o arroz, o milho, a mandioca, o feijão, as verduras e legumes de horta, as frutas de pomar, todos os dias, colhendo o fruto de um trabalho, que embora não remunerado, era um trabalho, e vez em quando uma galinha completava a refeição, e quando abundava o alimento, João dava para quem precisasse ou quisesse, Leve lá uma galinha, dona Adelina, pra engordar, Muito obrigada, João Simão, e Deus lhe pague, Pode deixar, mande um abraço ao Zé, Será dado, até mais ver, Até. Vale saber também que João Simão não vai a lugar nenhum sem antes passar na igrejinha do padre Frido para uma boa conversa, que vez ou outra não é apenas uma simples conversa, mas um desafogo de mágoas acumuladas que João também carrega na alma, e só se dispõe a falar desses assuntos quando a dor já não lhe cabe num único peito, e já que outro ele não tem, recorre a padre Frido, que com seu dom de dizer palavras de tranqüilidade faz as partes do outro peito, necessário para compartilhar o sofrimento e assim aliviar, pelo menos aliviar, as dores. Fora isso, João ainda freqüenta assiduamente as missas dominicais do padre Frido, que diz Saibam irmãos, que se Deus levasse em conta nossas faltas, todas elas, como poderíamos subsistir, como ter a certeza de que em Deus encontra-se o perdão, como saber se Deus, que renova o mundo, renova também o paraíso, pois se assim for, além de termos que merecer entrar no reino dos céus, teremos ainda que merecer a nossa permanência lá, e é por isso que devemos orar sempre, todos os dias, para que reforcemos nosso perdão perante Deus, e todos respondem Deus, tenha piedade de nós.

Pedro e João se olham, de longe na missa, todos os domingos. Vez em quando um cumprimento tímido, quando em vez não, cabeça baixa, que o recato é o melhor remédio para a timidez. Deus vos abençoe e vos guarde, que ele vos mostre a sua face e se compadeça de vós, volva para vós o seu olhar e dê a sua serenidade. Voltem em paz, irmãos e que Deus vos acompanhem. Fim de mais uma missa, a alma sai mais leve da igreja, tão leve que parece o corpo nem tocar o chão. Zé Silveira volta para a fazenda do doutor coronel Felisberto, ele mais a mulher Adelina, que não sai com a alma mais leve, ao contrário, sai com um peso enorme sobre os ombros, já que não teve coragem de comungar, não sabendo direito se era errado ou não o que sentia, querendo não pensar naquilo e ao mesmo tempo já fazendo tudo no pensamento, e o pior é que fazia com alguém que ela pensava ser o marido, mas não tinha rosto esse personagem dos sonhos de Adelina, e também não tinha o corpo curvado pelo trabalho, nem era tão raquítico.
Mal chegam em casa e já vai Zé Silveira pro trabalho, que não pode demorar a prestar seus serviços ao doutor coronel Felisberto, Deus me livre de despertar a ira do homem, que se for pensar, Zé Silveira irá achar que patrão que nem ele não há, que deixa ele ir à missa sem descontar do pagamento. Tchau Adelina, até mais à noite, Tchau Zé, bom trabalho, e pode deixar que de noite tem aquela comidinha que você tanto gosta, aquele ensopado de galinha. Engano dela e dele, pois não sabia Adelina que Zé Silveira não voltaria hoje para casa, nem hoje nem nunca mais, que iria cair morto no campo, antes do anoitecer, e poderia pensar Adelina, Que Deus é esse que levou o meu Zé pra longe de mim, eu que estou prenha e necessitada de homem, só se for por castigo das coisas que andei pensando, mas não precisava me punir assim, mas ela não pensa, não teria coragem de contestar as vontades divinas, que se Deus levou é porque dele precisava lá em cima, e não seria ela que iria julgar se era certo ou errado as atitudes do Senhor.


9.

Que faz esta figura parada na porta da minha alma, sorrateira, momentânea, a ouvir, pouco, e some imediatamente no meu nada, e o que sou eu, que permito e desfruto até, sem saber se sinto por mim ou deixo apenas que sintam-se, sós, os sentimentos, sem guia, enquanto eu apenas assisto, abismado, seu desenvolvimento no plano maior, superior de mim, sem saber ao que vim ou ao que fui, se nada sou capaz ainda de concluir, tento pensar, calmo, o que imagino um pensar, que dúvidas não me faltam, e respostas não me querem chegar, nenhuma, ou talvez ainda não saiba bem aonde procurá-las, se é que de mim depende este saber, que se depender, totalmente, por agora me declaro ignorante, pois pistas não tenho, e ensinamentos não me foram passados, e se cada um deve saber destas coisas naturalmente, por si só, por seus próprios caminhos, onde foi que me desviei neste meu tão errado, onde fiz a escolha que não foi a certa, ou fizeram-na para mim, que também é possível, iniciado errado, desde o princípio, sem oportunidade de escolha, sem chance de optar entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, entre o reto e o torto, entre o curto e o longo, entre o suave e o árduo, onde foi que eu errei padre Frido, de onde origina esta minha agonia?

Padre Frido ouviu esta confissão de duas pessoas diferentes, e para cada uma delas poderia ter respondido Pedro, meu filho, embora não me negaste o nome três vezes, tenho um carinho especial por ti e sofro também com essas tuas agonias, mas se tivermos em mente que essas coisas são fontes sem água, nuvens levadas para longe com o vento, nos quais a escuridão das trevas eternamente se reserva, viverás melhor, e saberás que o importante não é o saber, que existem coisas que nasceram ou foram feitas para não serem conhecidas e outras ainda para nem ao menos serem questionadas, que só assim poderemos alimentar nossos sonhos de buscar saber alguma coisa, que se fizermos logo todas as perguntas de nossas vidas, poderemos já não encontrar todas as respostas, e por conseqüência, um tamanho desânimo poderá se instalar em nossos corações que seria capaz de nos reduzir a vida e a própria vontade de viver, uma vez que nada mais teríamos para perguntar, e não digo que isto seja de todo ruim, pois bem sei que existem muitos por aí que nada mais têm para perguntar, e muitas vezes não é nem por terem perguntado tudo de uma só vez, mas por não saberem o que perguntar, por não terem aquela voz que nos faz aquelas perguntas que queremos saber, lá no fundo de nossas cabeças, a nos incomodar e a tirar nosso sono, e vivem bem estes, que parece-lhes ser melhor nada saber, sem saber que nada sabem, ou sem se importar, por pouco que seja, e menos ainda perguntar, que melhor mesmo é ir levando a vida assim, caudalosa e sonolenta, sem preocupações ou dúvidas, já que tudo não passa disso, mas sei bem que não é este teu caso Pedro meu filho — e padre Frido chama Pedro de filho só por carinho, que bem sabemos não terem eles esses parentescos — Sei também que de nada te adiantará essas minhas palavras enquanto não souberes o que te confunde, e bem sei o que sentes, porque também eu nasci com essa estragosa sensibilidade que deprime os seres e prejudica as existências, se bem que não a usei sempre para as coisas boas como tu, pois nem sempre fui padre, e nem mesmo bom eu era, muitos já matei, e muito já roubei também, mentiras, o próximo era eu mesmo, e o pior é que não me arrependo, sei que o que fiz foi errado, mas não sou capaz de me arrepender, acredito sim, que hoje não faria novamente, e se queres saber de toda a verdade, nem padre eu sou, embora me considere, mas não sou, e de todas as coisas que falo, muitas são da minha cabeça, que não acho lá muito certa a justiça divina, e outras são tiradas da Bíblia, mas eu me viro, e acredito até que esteja fazendo um bem a vocês, e espero que você, Pedro, não fique chocado com o que eu acabei de lhe contar, e peço-te um favor, que não espalhe por aí essa história, sabe como é, não ficaria bem, talvez ninguém mais viesse à igreja. E Pedro responderia Tudo bem padre Frido, não se preocupe, reze lá uma ave-maria e um pai-nosso e fica com Deus. Mas nada disso acontece, e padre Frido apenas diz Que a graça e a paz te sejam multiplicadas, Pedro, reze lá dez ave-marias e dez pais-nossos e fica com Deus.

Ao outro, diria Frido João meu filho, tenho um carinho especial por ti e sofro também com essas tuas agonias, mas devemos ter em mente que essas coisas as temos para que nosso gozo se cumpra, que se és sábio, deverás ser para ti mesmo, mas se és escarnecedor, não o conseguirás ser para outro além de ti, para isso basta ser-se, basta teu viver, teu cantar e teu falar, que bem conheci teu pai e tua mãe, e sei bem da tua vida, mereces viver em paz eterna e não é bom que procures tormentas, acalma teu espírito que tudo se resolverá, tu já tens o conhecimento, basta ordená-lo nas idéias e no coração, não te preocupes com mal-dizeres de outros que não merecem o lugar que teu cocho ocupa na tua parede, saiba se remir, aprenda a viver apenas com teus dons, que é bem assim que tua mãe queria e teu pai também, embora de maneiras diferentes. Aproveita enquanto és jovem, que podes dirigir a ti mesmo e andar por onde queiras, que depois que ficares velho, estenderás tuas mãos para que outro te guie e te leve para onde não gostarias de ir, e digo isso não para que te desanimes ou que te amedrontes, mas para que te preparares para a vida, que nunca devemos esperar um beijo na face ensangüentada, nunca devemos esperar o pedaço de queijo na boca faminta, mas sim aprender a erguer o rosto deformado e a manusear a faca com a mão amputada, que eu, João meu filho — e padre Frido chama João por filho pelo mesmo sentimento de carinho que tem com Pedro —, eu já fui muito ruim nessa vida, muitos já matei, e muito já roubei também, mentiras, o próximo era eu mesmo, e não me orgulho disso, embora não consiga me arrepender, explorava as pessoas, roubava-lhes o suado dinheiro sem dar importância a como elas iriam ficar, sem comer, sem ter onde morar, explorava os mais baixos sentimentos do ser humano, desisti da minha própria vida por alguns punhados de dinheiro, mas isso já passou, desde que eu aqui cheguei e me fiz de padre, vivo melhor, sim, me fiz de padre, que padre mesmo nunca fui, mas até me considero, embora eu me questione se estará Deus contente com o que fiz e com o que venho fazendo, se ele vai esquecer do meu passado mesmo eu não me arrependendo, e para isso eu rezo muito, rezo bastante, todas as rezas que conheço, as rezas dos desesperados, dos amargurados, dos angustiados, dos desencorajados, dos desviados, dos enfermos, dos desprotegidos, dos ansiosos, dos agradecidos, dos derrotados, dos desprovidos, dos preocupados, dos faltosos de fé, dos tentados, dos infelizes, dos contentes, todas, rezo todas de uma só vez, na esperança que lá em cima haja alguém para destrinçá-las, separá-las por assunto, devoção e interesse. E te peço, João, por Deus, não saias por aí espalhando que ouviu essas coisas de mim, pois se fizeres, temo que ninguém mais venha às missas, e isso seria o mesmo que me mandar para o inferno, sem ao menos a chance de eu tentar me purificar. E João responderia Tudo bem padre Frido, não se preocupe, reze lá uma ave-maria e um pai-nosso e fica com Deus. Mas nada disso acontece, e padre Frido apenas diz Que a graça e a paz te sejam multiplicadas, João, reze lá dez ave-marias e dez pais-nossos e fica com Deus.

E saíram os dois da igreja, João Simão e Pedro Tristão, ao mesmo tempo, como se fosse possível os dois terem conversado com padre Frido ao mesmo tempo. Como vai Tristão, Bem, Tá indo para o trabalho, Não, Se tiver um tempinho para um bate-papo, Agradeço mas deixa para uma outra vez, quero ir para casa pensar numas coisas que Padre Frido me disse, Tá bom, assim eu também faço isso que também estou necessitando, Até mais ver, Até.

E por ser o mundo redondo e dar voltas, talvez tenha ele dado duas voltas ao mesmo tempo, ou ainda pode ser que tenha passado duas vezes pelo mesmo lugar, só que uma vez com Pedro Tristão e outra com João Simão… Quem aqui vai saber dessas coisas.


10.

Dia chuvoso vai se mostrando este que mal começou, parecendo ser, entre nuvens, relâmpagos e trovoadas, o anúncio de algo que está por vir, uma mudança, tal qual quando Liúnas quis que lhe mudassem o nome, quando Ibiruengara se manifestou. Naquele dia fez-se tempo tão ruim quanto este, se não pior, e só choveu tão intensamente naquele dia e hoje, nunca mais. Por isso o povo humilde acredita que algo está por vir e reza, cada um esperando ser o benemérito da divina benevolência.

Padre Frido também conhece a história mas não é muito crente a ela. Teme sim as tempestades porque foi assim que Deus se vingou do homem, conforme conta, quando fez chover quarenta dias e quarenta noites sem parar, alagando tudo, o mundo todo sem um pedacinho de terra seca, só porque havia se arrependido de fazer o homem à Sua semelhança e ainda ter que olhá-lo todos os dias, observar seus atos e perceber que algo havia saído errado e não saber de onde provinha tanta maldade. Foi quando Deus abriu os abismos do céu e deixou que a água caísse. O que não se sabe direito é como Noé ficou sabendo que tanta água viria, já que existe duas histórias. Conta-se numa que era ele homem bom, a verdadeira imagem de Deus, e sendo assim, foi avisado pelo Próprio. Mas já outra diz que passado um ano do dilúvio, quando Deus ia caminhando pela Terra já seca, qual não foi sua surpresa ao ver uma família, viva, e mais adiante um casal de cavalos, um leãozinho ao lado do papai leão e da mamãe leoa, um casal de chimpanzés, um de capivaras, um de girafas, de hipopótamos, elefantes, gorilas, avestruzes, leopardos, alces, tamanduás, cangurus, tigres, cachorros, onças, orangotangos, emas, veados, ursos, linces, zebras, gatos, coelhos, e mais outro animal, e outro, e outro, todas as espécies correndo livremente, insetos, pássaros voando, tudo. Deus aproximou-se do homem e perguntou-lhe Homem, diga-me o teu nome, e Noé, igualmente espantado em ver outro homem vivo, respondeu Noé, e inicia-se um pequeno diálogo, Deus perguntou Como conseguiste escapar ao dilúvio, E Tu, como escapaste ao dilúvio, Eu não escapei, Eu o criei, Então és Deus, O próprio, Onde estiveste que não me ouviste, Estive ocupado com assuntos do novo mundo, agora responda, como escapaste ao dilúvio, Um anjo me avisou sete dias antes de começar a chuva, disse-me que o Senhor estava zangado e faria jorrar as águas como nunca havia jorrado, que era para eu me preparar com um barco e recolher todas as espécies de animais nele, em casais, mais minha família e aguardar pelo dilúvio, E como se chamava esse anjo, Lúcifer bem disse que eu Te encontraria e que Perguntarias seu nome…

O medo de padre Frido é que tenha chegado a hora de fazer nova limpeza no mundo, e que desta vez não venha nenhum anjo que traga o archote para iluminar sobre a tragédia, e mesmo que vier, que não seja Frido um dos escolhidos para participar da caravana da salvação, além do que, Frido nunca entendeu por que os animais e os insetos também deveriam ser exterminados se Deus Se decepcionou com o homem, e se por um motivo ou outro escolheu pela eliminação dos insetos e animais, por que também não amaldiçoou os peixes, que continuaram suas vidas, já que é na água que vivem.

Pensando assim é que Padre Frido sente uma angústia, ou sabe lá que nome se dá àquele nó no peito que parece apertar tanto que chega à garganta e faz brotar água dos olhos, sem mesmo a gente querer, e acaba pensando na vida, na sua, na vida e na morte, nas suas andanças e nas coisas que vem fazendo já há bom tempo, como se obter o perdão se não consegue se arrepender, tantas coisas que tem verdadeira vontade de fazer, como não ficar triste com essa intransigência e crueldade, embora ganhando uma vida eterna mais gratificante, o que será da terrena, se sabemos que esta existência logo acaba, que uma vida é muito pouco, não dá tempo pra nada, muito menos para se arrepender, e mesmo que outra vida vier, de nada lembraremos, do que fizemos e de quem deixamos, e quando menos se espera, a jornada se acaba, e não adianta gritar, feito louco, buscando um suspiro de vida, que ninguém ouvirá, e o coração aperta mais e mais, e as cataratas da alma não conseguem se conter e se desfazem num dilúvio próprio e particular, mais terrível até, mas mesmo assim, padre Frido aspira uma vida mais justa e menos sofrida, já que eterna, nos céus.
E pensando assim, Frido vira-se de lado na cama, olha para o teto imaginando o céu, as estrelas, e suspira, entregue a heresias.


11.

A chuva forte que começara logo após a missa cessava agora. Depois de chover o dia e a noite toda, este sol é de justiça, pensa Adelina. Só que Zé Silveira não voltou pra casa ontem à noite, nem hoje pela manhã, que seria o certo se por acaso tivesse alguma seroada pra cumprir, o que não era raro, mas não, e Adelina já se preocupa, e sai em desespero ao encontro do marido, ao menos à procura, que sabemos já como será o encontro. Mal avisou Lucinda que ia, pra ela cuidar do almoço caso não voltasse a tempo, tamanha angústia, com a barriga daquele tamanho nem era direito estar andando pra lá e pra cá, mas o que se vai fazer, que Lucinda é tão doente, coitada, nem andar mais consegue.

Adelina bate palmas em frente à porta da casa de Felisberto, Senhor doutor coronel Felisberto… Felisberto… Senhor doutor coronel Felisberto… e antes de conseguir lembrar o nome completo do senhor doutor Felisberto um criado já vinha ver quem era que tanto gritava, Pelo amor de Deus, me chama lá o seu senhor doutor coronel que eu preciso muito de falar com ele, E quem é você, Eu sou Adelina Silveira, mulher do Zé Silveira que trabalha nas terras pra ele já tem mais de quatro anos, E o que a senhora deseja com o coronel Felisberto Gomes Ventura da Boa Morte, Adelina faz o sinal da cruz ao ouvir o nome Boa Morte e diz Sabe o que é moço, é que meu marido veio pro trabalho ontem de manhã e não voltou até agora, e aquela chuvada toda, eu tenho um pressentimento ruim de que alguma coisa possa ter acontecido, Sinto muito, mas o coronel não vai poder atendê-la no momento… Pode deixar, Anísio, que eu mesmo trato com a moça… Em que posso ajudá-la, Senhor doutor coronel Felisberto… Pode deixa isso pra lá, me chame só de coronel, Pois é seu senhor doutor coronel, é o meu marido, o Zé, que trabalha pro senhor nas suas terras já tem mais de quatro anos, ele saiu de casa ontem depois da missa e não voltou, e eu queria saber se por acaso ele ainda está trabalhando, numa seroada a mando do senhor doutor coronel, Hum… O Zé não me falou que você estava prenhe… Nem que tinha uma mulher tão bonita, Muito obrigada seu senhor doutor coronel, mas quero saber do meu Zé, Bem, que eu saiba não precisei de ninguém ontem para fazer serão, Ai meu Deus do céu, então aconteceu alguma coisa, Calma mulher, entre cá um bocadinho enquanto mando o Anísio dar uma busca pela fazenda, Muito obrigada senhor doutor coronel Felisberto, mas eu mesma vou atrás do meu homem. E saiu Adelina, sob o olhar malicioso do coronel Felisberto Gomes Ventura da Boa Morte, que admirava e já cobiçava a carne roliça de Adelina. E corre Adelina para um lado, e corre Adelina para o outro lado, nunca havia imaginado ser tão grande a fazenda do senhor doutor coronel Felisberto, agora vê que não é à toa que o Zé chega em casa quase se arrastando. Chega à beira do riacho, senta exausta, desesperada, chorando mágoas, enxugando lágrimas no vestido já sujo, e é quando Adelina avista um corpo no rio, preso debaixo de uma árvore enorme que havia caído. Um nó na garganta trava o grito, melhor assim, que nem fôlego mais tinha, e ela corre na direção daquele que parece ser o Zé — O meu Zé — lamenta, e tenta rolar a árvore, tenta puxar o corpo, mas não consegue. Era mesmo o corpo de Zé Silveira, afogado junto com seus sonhos, suas esperanças e seus desgostos.
Desse dia em diante, não terá mais paz nos sonhos Adelina, que sonhará todas as noites com o marido morto, debaixo da árvore, imaginando, no sonho, que se levantar a árvore o marido voltará a viver, e tenta, mais do que tentou, mas não há força que agüente o peso da árvore, e Adelina grita por socorro, enquanto vê o coronel Felisberto soltar largas gargalhadas e sobrevoar o corpo do Zé, em busca de sua carne. E se não bastasse isso, Adelina ainda sonha, na mesma noite, com o marido dizendo pra ela Adelina, por que é que nos separaram, eu, que te amo, de ti, que me amas, quando é que vais vir pra cá junto a mim, Adelina, que aqui é bem melhor do que aí onde estás, e Adelina responde, Logo, Zé, assim que Deus me der a graça, que tenho medo de tirar a própria vida e não mais te encontrar, Estou te esperando, Adelina, estou te esperando. E se já não bastasse as agonias e as dificuldades do mundo real, tinha ainda essas do mundo dos sonhos, Adelina.

A chuva parou. Depois de chover o dia e a noite toda, este sol é de justiça, pensa padre Frido, aliviado. Mas a sensação de alívio de Frido será passageira, assim que souber da chegada de gente nova na vila, principalmente quando souber que essa gente nova vem da Alemanha, terra de Frido. Dizem ser um grupo de atmosferólogos, que estão estudando as condições do lugar, já que em Liúnas o clima é muito favorável em relação ao resto da região, mas cá já sabemos que não são.

Os dois homens não falam o português, só a mulher, embora fortemente carregado. Padre Frido ficou sabendo da chegada deles através de João Simão, nas suas visitas matinais, Tem gente nova na cidade, padre, e parece que são estrangeiros, dois homens e uma mulher, bonita a mulher, Estrangeiros, hem, como você sabe, Saber não sei não, mas que parecem, parecem, é um mais branco que o outro, e são muito esquisitos, o senhor tem que ver, ficam andando pra lá e pra cá, conversando com todo mundo, perguntando coisas, Ora, João, o que tem de mais sair por aí perguntando coisas, ainda mais quando se está num lugar estranho, que não se conhece, Eu sei, padre, mas não me parece lá gente comum, além do que, quem iria querer passear por aqui. Quando o senhor ver vai me dar razão.

E só se fala nisso na vila inteira, ninguém mais tem outro assunto pra tratar, afinal, não é sempre que acontecem novidades em Liúnas do Norte. Frido caminha em direção à praça, que é onde os forasteiros estão. Padre Frido já pode avistar os três conversando com a criançada, isto é, quem conversa é a mulher, já que só ela consegue se fazer entender. Padre Frido vai se aproximando, cada vez mais lentamente, conforme os traços dos dois homens se tornam mais nítidos, aquele homem mais velho… Bom dia, forasteiros, sejam bem-vindos à Liúnas do Norte, eu sou padre Frido, em que posso ajudá-los, Muito prazer, padre, meu nome é Marthe, este é meu marido Vicent, e este é Christian, um velho amigo, eles não falam o português, somos todos alemães, Oh, alemães, e o que fazem aqui, tão longe de casa, Somos atmosferólogos e estamos fazendo um estudo das características do clima daqui, que é muito interessante, Sim, realmente não podemos nos queixar do bom Deus que tem olhado por nós, É justamente isso que iremos estudar, padre, se é o seu bom deus quem favorece o clima ou se é algum fenômeno atmosférico, Estejam a vontade, e contem com a minha ajuda no que eu puder ser útil, afinal, a igreja existe para ajudar esta pequena comunidade, e enquanto estiverem aqui também fazem parte dela, Obrigada padre… e o senhor, dá pra se notar que não é natural da vila, Não, na verdade não, eu sou da capital, nasci e fui criado lá, concluí meus estudos e depois vim para o interior, em busca de um lugar para construir uma igrejinha, evangelizar uma comunidade, essas coisas de padres, Sei, sei, Bem, eu já vou indo, muito prazer em conhecê-los, se precisarem de alguma coisa não se acanhem em me procurar lá na igreja, até mais ver, Obrigada padre, Não há de quê.

Frido afasta-se com o pressentimento de conhecer aquele homem, só que o pressentimento agora é bem mais forte do que antes, já que eram alemães, como Frido, que esforça-se em buscar na memória um nome que se encaixe com a fisionomia do alemão, que dizia se chamar Christian… Christian… Certamente não conheço nenhum Christian, a não ser que não seja esse seu nome, e sendo os nomes as palavras mais vazias que existem se não colocarmos alguém dentro deles, pode muito bem aquele homem ter sido colocado dentro daquele nome por pura conveniência.

Embora não haja jornal, rádio, ou qualquer outro tipo de divulgação de notícias em Liúnas, as notícias sempre acharão um canal para se divulgarem, e praticamente todos os liunenses já sabem que os forasteiros são alemães, que estudam o tempo, e que estão acampados perto do riacho, um pouco afastado da vila. Até o João Simão já formou uns versos sobre os estrangeiros, na verdade sobre a estrangeira, que é assim, Que mulher bonita eu vi, Chegou com mais dois e é estrangeira, É tanta beleza junta que quase morri, Tô apaixonado para a vida inteira, Vão estudar o tempo, Que coisa mais estranha, Sol, chuva e vento, Será que não tem isso na Alemanha, e sai cantando por aí, sorridente de paixão pela alemãzinha, ainda por cima loira, que é coisa que não tem por aqui em Liúnas. Mas não só João Simão foi se apaixonar por Marthe. Pedro Tristão, solitário, também foi atingido pela paixão, só que mais recatado que é, não sai por aí falando pra todos que está apaixonado, não gosta disso de dividir o que sente com os outros, sempre foi assim e nunca vai mudar, até o dia de sua morte. Coisas da vida, uns são faladores, outros são calados, uns desinibidos, outros recatados, uns atirados, outros recolhidos, mas todos são boa gente e igualmente filhos de Deus. Não será por essas coisas que Deus irá separar quem merece ou não entrar no Seu reino.


12.

O sangue escorria pela testa devido aos ferimentos causados pelos espinhos ornamentados como uma pequena coroa, que rasgavam a carne para poderem ficar bem fixados na cabeça. O corpo já ia bem cansado, seminu, com uma enorme cruz de madeira maciça sobre os ombros, subindo longas e íngremes escadas, e o povo olhando, uns de compaixão, outros de prazer, e outros de tristeza, mas ninguém fazia nada para ajudar, não que não quisessem, alguns, mas não lhes era permitido mesmo, que ao menor avanço já eram afastados pelos guardas, menos aqueles que se aproximavam para piorar ainda mais a situação daquele que já ia ruim, para lhe cuspirem na cara, atirarem-lhe pedras e empurrarem-lhe o corpo para que caísse e tivesse que se levantar novamente, o que se tornava um duplo sacrifício, pois já não bastava o caminhar, ainda mais o levantar, tanto do corpo quanto da cruz, e os risos se ouvia muito mais do que os choros, já que havia muito mais pessoas a rir do que pessoas a chorar, e outros ainda, sem rir ou chorar, comentavam, Pobre homem, isto não é tratamento que se dê nem a camelos, outros ainda, A mim não dói, não o conheço mesmo, alguma coisa deve ter feito para merecer isto, e outros, Bem feito, muito bem feito, que bom termos um espetáculo destes para sairmos da normal rotina dos dias, e duas mulheres, Maria e Magdalena, choravam mais que todos, mas mulheres que eram, nem se ouvia direito o pranto, que já sem forças iam, e os soluços e as lágrimas se perdiam no meio das opiniões que predominavam na multidão, Só podia dar nisso mesmo, Também, quem mandou querer ser rei, e outros ainda gritavam, irados Morte ao rei dos judeus, morte ao rei dos judeus.

Padre Frido estava pensativo, meio que preocupado com a sensação de já conhecer aquele alemão de outros tempos, admirando o quadro de Cristo carregando a cruz, vendo seu próprio rosto manchado de sangue, e pior, se aquele alemão, o tal de Christian, for realmente alguém conhecido, com toda a certeza está no seu encalço, pois ou é bandido atrás de vingança ou é policia atrás de recompensa. Mas recompensa de quê, pensa Frido, Eu, pobre ninguém, perdido num lugar esquecido pelo próprio tempo, me fingindo de padre, que é o máximo que essa gente poderia ter, quanto tempo ainda este pesadelo me perseguirá, até a eternidade talvez, ou quem sabe melhor agora do que para sempre. E durante todo o dia padre Frido busca na memória alguma imagem que possa faze-lo lembrar de Christian, ou seja lá como for o nome dele, porém sem sucesso. Já é hora de deitar, e padre Frido ajoelha-se ao pé da cama para sua reza de todas as noites, elevando seus olhos para os céus, pedindo ao Senhor que sua palavra não vacile quando falar das leis divinas, que nunca mais será contra seu próximo, e não mais enganará com seus lábios, pois sabe que tudo tem sua ocasião própria, e todo o propósito debaixo do céu tem o seu tempo, assim como temos o tempo de amar e o tempo de odiar, o tempo de rir e o de chorar, o de fugir e o de enfrentar, de receber e de dar, o tempo de viver e o tempo de morrer, o tempo de vingar e o de ser vingado, o de caçar e o de ser caçado, de perdoar e de ser perdoado, o tempo de plantar e o tempo de colher o que foi plantado, o tempo de espalhar pedras e o de juntar pedras espalhadas, o de edificar e o de derrubar, de falar e de calar. Tudo isso tem visto Frido, sob este céu que nos abriga e protege, e vem aplicando seu coração na sabedoria divina, com algumas ressalvas, uma interpretação diferente aqui outra ali, que de onde lê acredita já ter sido interpretado, e sabe que deve fazer tudo que tem que fazer com suas próprias forças, e o seu arrependimento será a fonte da sua vida eterna — mas o arrependimento não vem… Amém.

E é só quando sonha que Frido consegue ser o que realmente gostaria, num lugar melhor, um paraíso, para que possa passar a eternidade serenamente, sem ter que se preocupar com obrigações ou deveres, ao lado das pessoas que gosta e já se foram, uma paz celestial, sonhada e real, os anjos tocando suas liras e harpas, voando ao seu redor, celebrando sua vitória, mas eis que surge um anjo caído, sem face, que não vem a vôo, vem a passos largos e apressados, um estranho, não convidado a entrar nesse reino dos sonhos de Frido, alto, muito alto, com capa preta e chapéu, parecendo ter asas também pretas nas costas, e dirige-se na direção de Frido e diz Finalmente nos encontramos Fritz, queira me acompanhar até o inferno, e solta uma gargalhada sombria. Fritz acorda, suado e assustado, agora com a certeza de saber quem é aquele alemão, o tal de Christian, o mesmo do sonho, que é atmosferólogo coisa nenhuma, e sim agente federal, membro de uma operação do governo alemão que queria por todo o crime organizado daquele longínquo final dos anos quarenta atrás das grades, e tentar moralizar um país que se via ainda meio atordoado com a destruição causada por uma guerra inútil e sem sentido, fanática mas não assumida, que deve ser muito bom se achar um povo superior, privilegiado, mas o difícil é conseguir conciliar isso com os ensinamentos de Deus, e foi aí que aquele alemão meio judeu, alucinado e de bigodinho ralo, falhou, pois se esqueceu de criar também uma igreja, que só o exército não foi o suficiente, aí sim, se a guerra fosse declarada santa, quem sabe o mundo hoje seria diferente, pior para nós, não-alemães, provavelmente melhor para eles, alemães, ao menos melhor para alguns alemães, que nem todos compartilhavam com as maluquices daquele outro, e foi por bem que pela guerra falharam, mas não na tecnologia, que bem sabemos que a bomba era deles, mas um outro iluminado achou por bem guardar segredo, que tal poder na mão de um homem só, ainda mais aquele, poderia até mesmo se comparar a Deus, e com medo da ira divina, não quis ser ele o responsável pela descoberta, embora responsável já fosse, mas só para ele, e acabou revelando esse segredo a outros, também malucos estes, talvez menos, que bem ou mal boa coisa também não fizeram, embora o final pareça ter sido melhor… aí vale perguntar se os fins justificam os meios, quem irá julgar… Pena mesmo é não haver desses iluminados em todos os países. Talvez fosse pedir demais.


13.

Já faz alguns dias que os forasteiros chegaram. Hoje é domingo, dia de missa. Padre Frido está temeroso, e pergunta-se como é que eles chegaram a esse fim de mundo. Isso é que não se sabe, mas com certeza estão no seu encalço, que outro motivo não há para cá estarem, ainda mais esse tal de Christian, ou seja lá como se chama, a quem Frido já conhecia dos tempos de maldade, sendo pouco provável que tenha mudado de profissão e esteja agora metido nesses estudos de atmosfera.

Embora fosse sua vontade, Fritz não poderia deixar de rezar a missa, afinal, a casa estava cheia de fiéis, inclusive os alemães, e ele, enriquecido pela eucaristia e pela palavra de Deus, deveria convocar a todos para a prática da justiça e testemunharem as boas notícias do evangelho. Padre Frido tenta se acalmar, se enriquecer pela eucaristia e pela palavra de Deus, mas acaba se enriquecendo de outras fontes menos sacras e mais profanas, um velho e bom litro de aguardente, donde tira um longo gole e logo em seguida já acha que fez mal, não se arrepende, mas acha que fez mal, pois há muito tempo tinha largado de beber bebidas alcoólicas, com exceção do vinho, que não é bebida alcoólica, mas o sangue de Cristo, e, já que não se sabe ao certo qual era o tipo do sangue de Cristo, todos os vinhos são seu sangue, cada qual um fator, os tintos são RH+, os brancos RH-, os secos o tipo A, os suaves o tipo B, os roses são o tipo O, e a mistura do branco com o tinto é o tipo AB. Sendo assim, se quisermos beber o sangue de Cristo de tipo AB fator RH-, devemos misturar ou o vinho branco seco com o tinto suave, já que o vinho branco seco é o tipo A fator RH- e o tinto suave é o tipo B fator RH+ e sabemos que + com – é igual a -, ou ainda o branco suave, que é tipo B fator RH-, com o tinto seco, que é tipo A fator RH+, e teremos o mesmo tipo AB fator RH-, e assim por diante, ficando livre as combinações de acordo com o espírito e vontades de cada um, sempre de acordo com os princípios sagrados.

A missa já vai começar, Estamos todos aqui reunidos em torno da mesa eucarística como irmãos e irmãs para celebrarmos nossa privilegiada posição de filhos de Deus, que se Deus necessitar de braços para ceifar a messe, daremos os nossos, os dois até, quem puder, que se alguém não puder, capaz de Deus até entender, que somos todos frutos da Sua messe e isso já sabemos, que dirá Deus. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e todos respondem, Amém. Abramos nossos corações ao arrependimento, para sermos menos indignos de nos aproximar da mesa do Senhor. Hoje, irmãos, rezarei uma missa especial de boas vindas aos nossos irmãos alemães. Oremos: Oh Deus, sempre nos preceda e acompanhe a vossa graça para que estejamos sempre atentos ao bem que devemos fazer. Oh Deus, escutai a prece que hoje nossa comunidade leva a Vós. Na confiança de sermos atendidos, pedimos, abençoai estas pessoas que nos visitam, que elas tenham uma boa estadia em nossa vila, e todos respondem Amém. E durante toda a missa padre Frido busca falar palavras de esperança e de arrependimento, de benevolência e de bênção, na tentativa de tocar os duros e frios corações alemães, mas eles parecem nem estarem ouvindo a missa, e certamente não estão, já que não entendem uma só palavra do que padre Frido fala, e mesmo a moça, que entende o português, parece estar com os pensamentos bem longe, ou ao menos, prestando atenção em outra coisa que não a palavra de Deus, pronunciada pela boca já meio espirituosa de Frido, que se mostra cada vez mais perturbado e não consegue deixar de olhar para Christian, que parece já saber de tudo, coisas da cabeça de Frido, que substituiu a água para molhar a garganta pelo vinho do sangue de Cristo, e o vinho do sangue de Cristo pelo aguardente do mijo do Diabo, o que ajuda a sua imaginação a tomar asas, voar para lugares indesejáveis, e acabar encontrando o medo e o desespero, que caminham sempre juntos, pois nunca se ouviu dizer que alguém deu com o medo e não com o desespero, ou vice-versa, que geralmente quando uma coisa vai mal, tudo vai atrás dela, até as que antes iam bem, dando a impressão que as forças do mal são mesmo superiores, o que implica que nossa missão, que é ganhar os céus, não é fácil, e talvez nunca venha a ser, que se perdermos, teremos uma boa desculpa, do tipo Também, quem é que pode com tamanha força. Deus vos abençoe e vos guarde, que Ele vos mostre a sua face e se compadeça de vós, volva para vós o Seu olhar e dê a Sua paz. Voltem em paz, irmãos e que Deus vos acompanhem. Dizendo isso, Frido encerra a missa.Já faz alguns dias que os forasteiros chegaram. Hoje é domingo, dia de missa. Padre Frido está temeroso, e pergunta-se como é que eles chegaram a esse fim de mundo. Isso é que não se sabe, mas com certeza estão no seu encalço, que outro motivo não há para cá estarem, ainda mais esse tal de Christian, ou seja lá como se chama, a quem Frido já conhecia dos tempos de maldade, sendo pouco provável que tenha mudado de profissão e esteja agora metido nesses estudos de atmosfera.

Embora fosse sua vontade, Fritz não poderia deixar de rezar a missa, afinal, a casa estava cheia de fiéis, inclusive os alemães, e ele, enriquecido pela eucaristia e pela palavra de Deus, deveria convocar a todos para a prática da justiça e testemunharem as boas notícias do evangelho. Padre Frido tenta se acalmar, se enriquecer pela eucaristia e pela palavra de Deus, mas acaba se enriquecendo de outras fontes menos sacras e mais profanas, um velho e bom litro de aguardente, donde tira um longo gole e logo em seguida já acha que fez mal, não se arrepende, mas acha que fez mal, pois há muito tempo tinha largado de beber bebidas alcoólicas, com exceção do vinho, que não é bebida alcoólica, mas o sangue de Cristo, e, já que não se sabe ao certo qual era o tipo do sangue de Cristo, todos os vinhos são seu sangue, cada qual um fator, os tintos são RH+, os brancos RH-, os secos o tipo A, os suaves o tipo B, os roses são o tipo O, e a mistura do branco com o tinto é o tipo AB. Sendo assim, se quisermos beber o sangue de Cristo de tipo AB fator RH-, devemos misturar ou o vinho branco seco com o tinto suave, já que o vinho branco seco é o tipo A fator RH- e o tinto suave é o tipo B fator RH+ e sabemos que + com – é igual a -, ou ainda o branco suave, que é tipo B fator RH-, com o tinto seco, que é tipo A fator RH+, e teremos o mesmo tipo AB fator RH-, e assim por diante, ficando livre as combinações de acordo com o espírito e vontades de cada um, sempre de acordo com os princípios sagrados.

A missa já vai começar, Estamos todos aqui reunidos em torno da mesa eucarística como irmãos e irmãs para celebrarmos nossa privilegiada posição de filhos de Deus, que se Deus necessitar de braços para ceifar a messe, daremos os nossos, os dois até, quem puder, que se alguém não puder, capaz de Deus até entender, que somos todos frutos da Sua messe e isso já sabemos, que dirá Deus. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e todos respondem, Amém. Abramos nossos corações ao arrependimento, para sermos menos indignos de nos aproximar da mesa do Senhor. Hoje, irmãos, rezarei uma missa especial de boas vindas aos nossos irmãos alemães. Oremos: Oh Deus, sempre nos preceda e acompanhe a vossa graça para que estejamos sempre atentos ao bem que devemos fazer. Oh Deus, escutai a prece que hoje nossa comunidade leva a Vós. Na confiança de sermos atendidos, pedimos, abençoai estas pessoas que nos visitam, que elas tenham uma boa estadia em nossa vila, e todos respondem Amém. E durante toda a missa padre Frido busca falar palavras de esperança e de arrependimento, de benevolência e de bênção, na tentativa de tocar os duros e frios corações alemães, mas eles parecem nem estarem ouvindo a missa, e certamente não estão, já que não entendem uma só palavra do que padre Frido fala, e mesmo a moça, que entende o português, parece estar com os pensamentos bem longe, ou ao menos, prestando atenção em outra coisa que não a palavra de Deus, pronunciada pela boca já meio espirituosa de Frido, que se mostra cada vez mais perturbado e não consegue deixar de olhar para Christian, que parece já saber de tudo, coisas da cabeça de Frido, que substituiu a água para molhar a garganta pelo vinho do sangue de Cristo, e o vinho do sangue de Cristo pelo aguardente do mijo do Diabo, o que ajuda a sua imaginação a tomar asas, voar para lugares indesejáveis, e acabar encontrando o medo e o desespero, que caminham sempre juntos, pois nunca se ouviu dizer que alguém deu com o medo e não com o desespero, ou vice-versa, que geralmente quando uma coisa vai mal, tudo vai atrás dela, até as que antes iam bem, dando a impressão que as forças do mal são mesmo superiores, o que implica que nossa missão, que é ganhar os céus, não é fácil, e talvez nunca venha a ser, que se perdermos, teremos uma boa desculpa, do tipo Também, quem é que pode com tamanha força. Deus vos abençoe e vos guarde, que Ele vos mostre a sua face e se compadeça de vós, volva para vós o Seu olhar e dê a Sua paz. Voltem em paz, irmãos e que Deus vos acompanhem. Dizendo isso, Frido encerra a missa.

O céu já não parecia ser aquele mesmo céu que nos protegia antes da missa. Não estava nublado, ao contrário, estava bem azul, limpo, o sol brilhava, nem quente nem frio, agradável, e nem mesmo as coisas de terra se mostravam diferentes. Salvo variações do tempo, que não há ainda força que o faça parar, os verdes eram os mesmos, as terras eram as mesmas, os animais eram os mesmos, e, embora tudo isso esteja envelhecendo a cada instante, são necessários milhares de pequenos instantes para que possamos notar as diferenças, que cada coisa, viva ou não, só existe enquanto estivermos olhando para ela, que assim que deixarmos de olhar, não estaremos certos de que ainda estarão lá quando olharmos novamente, e mesmo que estivessem, não teríamos a certeza de que a mesma unidade de tempo fora usada para ambos, nós e as coisas, vivas ou não, o que nos remete à incerteza sobre o que acontece conosco quando Deus dá aquela olhadela para as outras coisas que eventualmente necessitem de mais atenção, se o tempo realmente pára para nós ou se ficamos apenas alguns instantes — embora instantes divinos, que devem lá ter outra medida que os nossos instantes terrestres — destituídos das luzes dos olhos do Senhor.

Algo parece não ser o mesmo naquele céu, uma brisa diferente, tão sutil que nenhum ser humano seria capaz de captar, só o olfato de algumas aves, e justo estas não voam agora no céu como de costume, como se soubessem do que está para acontecer, não exatamente o quê ou onde ou como ou com quem, mas sabem. Essa brisa diferente sentem as aves quando Deus, tendo que prestar seus serviços com mais empenho em algum lugar diverso, descuida-se um momento ou outro, e é aí que as coisas acontecem, se bem que, normalmente, ao se dar conta de tudo novamente, pode Ele arrumar as coisas desarrumadas, mas só o faz vez ou outra. Frido acha que quem sofre das gravidades ocorridas é que deveria escolher esses momentos. Talvez esteja certo…
Já faz alguns dias que os forasteiros chegaram. Hoje é domingo, dia de missa. Padre Frido está temeroso, e pergunta-se como é que eles chegaram a esse fim de mundo. Isso é que não se sabe, mas com certeza estão no seu encalço, que outro motivo não há para cá estarem, ainda mais esse tal de Christian, ou seja lá como se chama, a quem Frido já conhecia dos tempos de maldade, sendo pouco provável que tenha mudado de profissão e esteja agora metido nesses estudos de atmosfera.

Embora fosse sua vontade, Fritz não poderia deixar de rezar a missa, afinal, a casa estava cheia de fiéis, inclusive os alemães, e ele, enriquecido pela eucaristia e pela palavra de Deus, deveria convocar a todos para a prática da justiça e testemunharem as boas notícias do evangelho. Padre Frido tenta se acalmar, se enriquecer pela eucaristia e pela palavra de Deus, mas acaba se enriquecendo de outras fontes menos sacras e mais profanas, um velho e bom litro de aguardente, donde tira um longo gole e logo em seguida já acha que fez mal, não se arrepende, mas acha que fez mal, pois há muito tempo tinha largado de beber bebidas alcoólicas, com exceção do vinho, que não é bebida alcoólica, mas o sangue de Cristo, e, já que não se sabe ao certo qual era o tipo do sangue de Cristo, todos os vinhos são seu sangue, cada qual um fator, os tintos são RH+, os brancos RH-, os secos o tipo A, os suaves o tipo B, os roses são o tipo O, e a mistura do branco com o tinto é o tipo AB. Sendo assim, se quisermos beber o sangue de Cristo de tipo AB fator RH-, devemos misturar ou o vinho branco seco com o tinto suave, já que o vinho branco seco é o tipo A fator RH- e o tinto suave é o tipo B fator RH+ e sabemos que + com – é igual a -, ou ainda o branco suave, que é tipo B fator RH-, com o tinto seco, que é tipo A fator RH+, e teremos o mesmo tipo AB fator RH-, e assim por diante, ficando livre as combinações de acordo com o espírito e vontades de cada um, sempre de acordo com os princípios sagrados.

A missa já vai começar, Estamos todos aqui reunidos em torno da mesa eucarística como irmãos e irmãs para celebrarmos nossa privilegiada posição de filhos de Deus, que se Deus necessitar de braços para ceifar a messe, daremos os nossos, os dois até, quem puder, que se alguém não puder, capaz de Deus até entender, que somos todos frutos da Sua messe e isso já sabemos, que dirá Deus. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e todos respondem, Amém. Abramos nossos corações ao arrependimento, para sermos menos indignos de nos aproximar da mesa do Senhor. Hoje, irmãos, rezarei uma missa especial de boas vindas aos nossos irmãos alemães. Oremos: Oh Deus, sempre nos preceda e acompanhe a vossa graça para que estejamos sempre atentos ao bem que devemos fazer. Oh Deus, escutai a prece que hoje nossa comunidade leva a Vós. Na confiança de sermos atendidos, pedimos, abençoai estas pessoas que nos visitam, que elas tenham uma boa estadia em nossa vila, e todos respondem Amém. E durante toda a missa padre Frido busca falar palavras de esperança e de arrependimento, de benevolência e de bênção, na tentativa de tocar os duros e frios corações alemães, mas eles parecem nem estarem ouvindo a missa, e certamente não estão, já que não entendem uma só palavra do que padre Frido fala, e mesmo a moça, que entende o português, parece estar com os pensamentos bem longe, ou ao menos, prestando atenção em outra coisa que não a palavra de Deus, pronunciada pela boca já meio espirituosa de Frido, que se mostra cada vez mais perturbado e não consegue deixar de olhar para Christian, que parece já saber de tudo, coisas da cabeça de Frido, que substituiu a água para molhar a garganta pelo vinho do sangue de Cristo, e o vinho do sangue de Cristo pelo aguardente do mijo do Diabo, o que ajuda a sua imaginação a tomar asas, voar para lugares indesejáveis, e acabar encontrando o medo e o desespero, que caminham sempre juntos, pois nunca se ouviu dizer que alguém deu com o medo e não com o desespero, ou vice-versa, que geralmente quando uma coisa vai mal, tudo vai atrás dela, até as que antes iam bem, dando a impressão que as forças do mal são mesmo superiores, o que implica que nossa missão, que é ganhar os céus, não é fácil, e talvez nunca venha a ser, que se perdermos, teremos uma boa desculpa, do tipo Também, quem é que pode com tamanha força. Deus vos abençoe e vos guarde, que Ele vos mostre a sua face e se compadeça de vós, volva para vós o Seu olhar e dê a Sua paz. Voltem em paz, irmãos e que Deus vos acompanhem. Dizendo isso, Frido encerra a missa.

O céu já não parecia ser aquele mesmo céu que nos protegia antes da missa. Não estava nublado, ao contrário, estava bem azul, limpo, o sol brilhava, nem quente nem frio, agradável, e nem mesmo as coisas de terra se mostravam diferentes. Salvo variações do tempo, que não há ainda força que o faça parar, os verdes eram os mesmos, as terras eram as mesmas, os animais eram os mesmos, e, embora tudo isso esteja envelhecendo a cada instante, são necessários milhares de pequenos instantes para que possamos notar as diferenças, que cada coisa, viva ou não, só existe enquanto estivermos olhando para ela, que assim que deixarmos de olhar, não estaremos certos de que ainda estarão lá quando olharmos novamente, e mesmo que estivessem, não teríamos a certeza de que a mesma unidade de tempo fora usada para ambos, nós e as coisas, vivas ou não, o que nos remete à incerteza sobre o que acontece conosco quando Deus dá aquela olhadela para as outras coisas que eventualmente necessitem de mais atenção, se o tempo realmente pára para nós ou se ficamos apenas alguns instantes — embora instantes divinos, que devem lá ter outra medida que os nossos instantes terrestres — destituídos das luzes dos olhos do Senhor.

Algo parece não ser o mesmo naquele céu, uma brisa diferente, tão sutil que nenhum ser humano seria capaz de captar, só o olfato de algumas aves, e justo estas não voam agora no céu como de costume, como se soubessem do que está para acontecer, não exatamente o quê ou onde ou como ou com quem, mas sabem. Essa brisa diferente sentem as aves quando Deus, tendo que prestar seus serviços com mais empenho em algum lugar diverso, descuida-se um momento ou outro, e é aí que as coisas acontecem, se bem que, normalmente, ao se dar conta de tudo novamente, pode Ele arrumar as coisas desarrumadas, mas só o faz vez ou outra. Frido acha que quem sofre das gravidades ocorridas é que deveria escolher esses momentos. Talvez esteja certo…

Saindo da missa, Marthe pede a Vicent e Christian para irem na frente, que ela quer dar uma volta pela vila, para tentar se familiarizar mais com os habitantes, e foi aí que João Simão conheceu, enfim, Marthe, quando ia ele num desses seus cantarolares, ela vinha passando, ouviu e achou graça, parou, sorriu para João que já se emendou a puxar conversa e a elogiar a beleza da mulher, e parece que ela gostou, já passou a olhar João mais detalhadamente, o corpo bem torneado, moreno queimado de sol, coisas que não existem lá para os lados dela, e convidou João para ir no seu acampamento esta noite, que não haveria ninguém por lá.

E não foi só João que conheceu sua musa Marthe, mas Pedro também. Parece que Marthe gostou de ser admirada pelos homens de Liúnas, e Pedro, artesão, grande habilidade nas mãos calejadas pelo trabalho, ombros largos e braços fortes, moreno queimado de sol, foi o bastante para que Marthe o convidasse para ir ao seu acampamento esta noite, pois não haveria ninguém por lá.

Dona Marta, dona Marta, ouve-se do lado de dentro do acampamento. Marthe vai atender, Olá, que bom que você veio, entre, sente-se aqui, diz Marthe apontando para um pequeno sofá incrusto na parede do reboque, Aceita uma vodca, Não senhora, muit’obrig… Tome, beba, você vai se sentir melhor. O calor era intenso, e era inevitável o transpirar dos corpos. Marthe passa o copo, que também transpirava devido à vodca gelada, ela se serve de uma também e senta-se ao lado do homem, tão próximo que faz seus seios roçarem no braço dele, que respeitosamente se afasta um pouco, comenta algo sobre um quadro com a figura de um cavalo negro correndo, pendurado na parede, mas Marthe não lhe dá ouvidos e, no instante seguinte, aproxima-se novamente, pergunta se a bebida está boa sem que ao menos ele tivesse provado, enquanto ela já virara o copo e se servira de outra dose, Beba, ele também vira e ela lhe serve mais, E então, como está a bebida, Tá boa sim senhora, e no instante seguinte ela mexe seus longos cabelos loiros e lisos, fazendo-os passar pelo rosto do homem, que já não tem mais espaço na poltrona para ser respeitador, mas ainda arranja um assunto qualquer para falar, os costumes da vila, as pessoas que conhece, os amigos, inimigos que não existem, já que todos são cordiais e de bem, mas ela não ouve e aproxima lentamente os lábios de encontro aos lábios dele, que só não virou o rosto porque aí já seria demais, além de que uma atitude dessas exigiria um outro instante naquilo tudo, e ele queria, ao mesmo tempo, que aquilo tudo acabasse logo e acabasse nunca. Os lábios se uniram, os dela com os dele, e ele já sentia o calor do corpo dela se aproximando do seu, e ela já podia sentir toda aquela corrente de sangue penetrando nas cavernas mais secretas dele, fazendo enrijecer aquele pedaço de músculo que é o sexo, e já ia o dela também se alimentando de um sem número de secreções, preparando-se para o que parecia inevitável, o encontro dos sexos, o dele com o dela, ela buscando com a língua a língua dele, ele se virando como podia, quase que se defendendo de tão fremente desejo, ela, mais experiente com essas coisas momentâneas, num único gesto arrancou a camisa, expondo um par de seios fartos, brancos feito leite, maravilhosos, e depois arrancou a dele, permitindo agora que os corpos ficassem unidos, um sobre o outro, ela por cima, colada no suor de calor e desejo dele. Ela passa a massagear seus ombros, o peito peludo, a barriga, e quando chega lá, começa uma verdadeira luta, aquele zíper, aquele maldito cinto, depois a calça que não saía pelo pé calçado de botas, e ele com as mãos nos seios dela, com a calça nas canelas, ela tira a dela até o joelho, acaricia o membro dele, forçando-o a acariciar o sexo dela, a euforia não permite a lógica e o sincronismo dos movimentos, e eles ganham o chão, ela por cima e ao mesmo tempo por baixo, um rolar desajeitado e majestoso, de desejo, com as calças meio colocadas e meio tiradas, tentaram, mas não conseguiram, e ela geme e grita palavras que ele não entende, ele pergunta se está machucando, ela apenas geme e mexe a cabeça negativamente, arranca as calça de vez e monta, agora sim, doma seu cavalo, que vai a largos e compassados trotes, e acelerando, progressivamente acelerando, cada vez mais, até a cavalgada em desenfreada carreira, buscando a vitória no último páreo, e gritos dela, gemidos meus, palavras indecifráveis, pulos, gritos, gemidos, e eu pude assistir ao orgasmo dela daqui de baixo, lindo, envolvente, como se fosse um arco-íris a refletir cores maravilhosas, e nem assim ela parou, até que chegou o meu momento, a minha vez de perder o domínio da minha razão e entrar nesse arco-íris de luz ofuscante, ah, agora sim, a golfada do prazer supremo da carne, e largamos nossos corpos um sobre o outro, buscando o relaxamento do ato, que por ser o primeiro não foi nada mal. Ela me perguntou se seu corpo estava a pesar sobre o meu, as primeiras palavras depois de cinco minutos de silêncio, eu disse que um pouco só, e então ela se levantou, rompendo a inércia natural e constrangedora, e eu me levantei em seguida, começamos a vestir nossas roupas, ela me ajudou com o cinto, eu a ajudei com a camisa, como se fôssemos velhos parceiros sexuais, eu disse, Já vou indo, e ela, de costas para mim começou a dizer, Tudo bem, e terminou por dizer olhando para mim, com um rosto lindo e satisfeito, não bem para mim, mas para além de mim, com os olhos longe, parecendo atravessar minha alma e ganhar um deserto inteiro por trás, mas rapidamente recompôs o olhar em meus olhos, e apenas, disse, A gente volta a se encontrar, Tudo bem.

E tudo isso aconteceu com João Simão e com Pedro Tristão também, ao mesmo tempo, sem ter o que tirar nem o que pôr, como se fosse possível os dois desfrutarem dos mesmos desejos e dos mesmos prazeres ao mesmo tempo, e um não sabe do outro, mas também não tem muita importância, que embora apaixonados, os dois, são homens de convicta solidão, e não vai ser uma aventura, ainda mais com uma mulher que deve voltar logo para sua terra, que eles vão abrir mão de suas maneiras de viver. Só o que aconteceu de diferente de um para o outro foi quando Marthe perguntou sobre o que faziam, e um respondeu Toco cocho, canto moda, conto casos, não tenho uma ocupação para o sustento, que nem preciso, pois alimento tenho do que planto no meu quintal, e o outro respondeu Faço cochos e móveis, peças de madeira e de cipó, sou artesão, e só. Dito isso, Marthe ficou de aparecer na casa de um para ouvir moda, na de outro para ver artesanatos, embora sabemos que serão outros os motivos das visitas.

E ao se encontrarem Pedro e João, poderiam ter dito Como vai João, Bem, Tá indo para casa, Tô, Se tiver um tempinho para um bate-papo, Agradeço mas deixa para uma outra vez, preciso descansar e pensar numas coisas que me aconteceram, Tá bom, assim eu também faço isso que estou necessitado, Até mais ver, Até. E por ser o mundo redondo e dar voltas, talvez tenha ele dado duas voltas ao mesmo tempo, ou ainda pode ser que tenha passado duas vezes pelo mesmo lugar, só que uma vez com Pedro Tristão e outra com João Simão. Quem aqui vai saber dessas coisas…
Saindo da missa, Marthe pede a Vicent e Christian para irem na frente, que ela quer dar uma volta pela vila, para tentar se familiarizar mais com os habitantes, e foi aí que João Simão conheceu, enfim, Marthe, quando ia ele num desses seus cantarolares, ela vinha passando, ouviu e achou graça, parou, sorriu para João que já se emendou a puxar conversa e a elogiar a beleza da mulher, e parece que ela gostou, já passou a olhar João mais detalhadamente, o corpo bem torneado, moreno queimado de sol, coisas que não existem lá para os lados dela, e convidou João para ir no seu acampamento esta noite, que não haveria ninguém por lá.

E não foi só João que conheceu sua musa Marthe, mas Pedro também. Parece que Marthe gostou de ser admirada pelos homens de Liúnas, e Pedro, artesão, grande habilidade nas mãos calejadas pelo trabalho, ombros largos e braços fortes, moreno queimado de sol, foi o bastante para que Marthe o convidasse para ir ao seu acampamento esta noite, pois não haveria ninguém por lá.

Dona Marta, dona Marta, ouve-se do lado de dentro do acampamento. Marthe vai atender, Olá, que bom que você veio, entre, sente-se aqui, diz Marthe apontando para um pequeno sofá incrusto na parede do reboque, Aceita uma vodca, Não senhora, muit’obrig… Tome, beba, você vai se sentir melhor. O calor era intenso, e era inevitável o transpirar dos corpos. Marthe passa o copo, que também transpirava devido à vodca gelada, ela se serve de uma também e senta-se ao lado do homem, tão próximo que faz seus seios roçarem no braço dele, que respeitosamente se afasta um pouco, comenta algo sobre um quadro com a figura de um cavalo negro correndo, pendurado na parede, mas Marthe não lhe dá ouvidos e, no instante seguinte, aproxima-se novamente, pergunta se a bebida está boa sem que ao menos ele tivesse provado, enquanto ela já virara o copo e se servira de outra dose, Beba, ele também vira e ela lhe serve mais, E então, como está a bebida, Tá boa sim senhora, e no instante seguinte ela mexe seus longos cabelos loiros e lisos, fazendo-os passar pelo rosto do homem, que já não tem mais espaço na poltrona para ser respeitador, mas ainda arranja um assunto qualquer para falar, os costumes da vila, as pessoas que conhece, os amigos, inimigos que não existem, já que todos são cordiais e de bem, mas ela não ouve e aproxima lentamente os lábios de encontro aos lábios dele, que só não virou o rosto porque aí já seria demais, além de que uma atitude dessas exigiria um outro instante naquilo tudo, e ele queria, ao mesmo tempo, que aquilo tudo acabasse logo e acabasse nunca. Os lábios se uniram, os dela com os dele, e ele já sentia o calor do corpo dela se aproximando do seu, e ela já podia sentir toda aquela corrente de sangue penetrando nas cavernas mais secretas dele, fazendo enrijecer aquele pedaço de músculo que é o sexo, e já ia o dela também se alimentando de um sem número de secreções, preparando-se para o que parecia inevitável, o encontro dos sexos, o dele com o dela, ela buscando com a língua a língua dele, ele se virando como podia, quase que se defendendo de tão fremente desejo, ela, mais experiente com essas coisas momentâneas, num único gesto arrancou a camisa, expondo um par de seios fartos, brancos feito leite, maravilhosos, e depois arrancou a dele, permitindo agora que os corpos ficassem unidos, um sobre o outro, ela por cima, colada no suor de calor e desejo dele. Ela passa a massagear seus ombros, o peito peludo, a barriga, e quando chega lá, começa uma verdadeira luta, aquele zíper, aquele maldito cinto, depois a calça que não saía pelo pé calçado de botas, e ele com as mãos nos seios dela, com a calça nas canelas, ela tira a dela até o joelho, acaricia o membro dele, forçando-o a acariciar o sexo dela, a euforia não permite a lógica e o sincronismo dos movimentos, e eles ganham o chão, ela por cima e ao mesmo tempo por baixo, um rolar desajeitado e majestoso, de desejo, com as calças meio colocadas e meio tiradas, tentaram, mas não conseguiram, e ela geme e grita palavras que ele não entende, ele pergunta se está machucando, ela apenas geme e mexe a cabeça negativamente, arranca as calça de vez e monta, agora sim, doma seu cavalo, que vai a largos e compassados trotes, e acelerando, progressivamente acelerando, cada vez mais, até a cavalgada em desenfreada carreira, buscando a vitória no último páreo, e gritos dela, gemidos meus, palavras indecifráveis, pulos, gritos, gemidos, e eu pude assistir ao orgasmo dela daqui de baixo, lindo, envolvente, como se fosse um arco-íris a refletir cores maravilhosas, e nem assim ela parou, até que chegou o meu momento, a minha vez de perder o domínio da minha razão e entrar nesse arco-íris de luz ofuscante, ah, agora sim, a golfada do prazer supremo da carne, e largamos nossos corpos um sobre o outro, buscando o relaxamento do ato, que por ser o primeiro não foi nada mal. Ela me perguntou se seu corpo estava a pesar sobre o meu, as primeiras palavras depois de cinco minutos de silêncio, eu disse que um pouco só, e então ela se levantou, rompendo a inércia natural e constrangedora, e eu me levantei em seguida, começamos a vestir nossas roupas, ela me ajudou com o cinto, eu a ajudei com a camisa, como se fôssemos velhos parceiros sexuais, eu disse, Já vou indo, e ela, de costas para mim começou a dizer, Tudo bem, e terminou por dizer olhando para mim, com um rosto lindo e satisfeito, não bem para mim, mas para além de mim, com os olhos longe, parecendo atravessar minha alma e ganhar um deserto inteiro por trás, mas rapidamente recompôs o olhar em meus olhos, e apenas, disse, A gente volta a se encontrar, Tudo bem.

E tudo isso aconteceu com João Simão e com Pedro Tristão também, ao mesmo tempo, sem ter o que tirar nem o que pôr, como se fosse possível os dois desfrutarem dos mesmos desejos e dos mesmos prazeres ao mesmo tempo, e um não sabe do outro, mas também não tem muita importância, que embora apaixonados, os dois, são homens de convicta solidão, e não vai ser uma aventura, ainda mais com uma mulher que deve voltar logo para sua terra, que eles vão abrir mão de suas maneiras de viver. Só o que aconteceu de diferente de um para o outro foi quando Marthe perguntou sobre o que faziam, e um respondeu Toco cocho, canto moda, conto casos, não tenho uma ocupação para o sustento, que nem preciso, pois alimento tenho do que planto no meu quintal, e o outro respondeu Faço cochos e móveis, peças de madeira e de cipó, sou artesão, e só. Dito isso, Marthe ficou de aparecer na casa de um para ouvir moda, na de outro para ver artesanatos, embora sabemos que serão outros os motivos das visitas.

E ao se encontrarem Pedro e João, poderiam ter dito Como vai João, Bem, Tá indo para casa, Tô, Se tiver um tempinho para um bate-papo, Agradeço mas deixa para uma outra vez, preciso descansar e pensar numas coisas que me aconteceram, Tá bom, assim eu também faço isso que estou necessitado, Até mais ver, Até. E por ser o mundo redondo e dar voltas, talvez tenha ele dado duas voltas ao mesmo tempo, ou ainda pode ser que tenha passado duas vezes pelo mesmo lugar, só que uma vez com Pedro Tristão e outra com João Simão. Quem aqui vai saber dessas coisas…

O céu já não parecia ser aquele mesmo céu que nos protegia antes da missa. Não estava nublado, ao contrário, estava bem azul, limpo, o sol brilhava, nem quente nem frio, agradável, e nem mesmo as coisas de terra se mostravam diferentes. Salvo variações do tempo, que não há ainda força que o faça parar, os verdes eram os mesmos, as terras eram as mesmas, os animais eram os mesmos, e, embora tudo isso esteja envelhecendo a cada instante, são necessários milhares de pequenos instantes para que possamos notar as diferenças, que cada coisa, viva ou não, só existe enquanto estivermos olhando para ela, que assim que deixarmos de olhar, não estaremos certos de que ainda estarão lá quando olharmos novamente, e mesmo que estivessem, não teríamos a certeza de que a mesma unidade de tempo fora usada para ambos, nós e as coisas, vivas ou não, o que nos remete à incerteza sobre o que acontece conosco quando Deus dá aquela olhadela para as outras coisas que eventualmente necessitem de mais atenção, se o tempo realmente pára para nós ou se ficamos apenas alguns instantes — embora instantes divinos, que devem lá ter outra medida que os nossos instantes terrestres — destituídos das luzes dos olhos do Senhor.

Algo parece não ser o mesmo naquele céu, uma brisa diferente, tão sutil que nenhum ser humano seria capaz de captar, só o olfato de algumas aves, e justo estas não voam agora no céu como de costume, como se soubessem do que está para acontecer, não exatamente o quê ou onde ou como ou com quem, mas sabem. Essa brisa diferente sentem as aves quando Deus, tendo que prestar seus serviços com mais empenho em algum lugar diverso, descuida-se um momento ou outro, e é aí que as coisas acontecem, se bem que, normalmente, ao se dar conta de tudo novamente, pode Ele arrumar as coisas desarrumadas, mas só o faz vez ou outra. Frido acha que quem sofre das gravidades ocorridas é que deveria escolher esses momentos. Talvez esteja certo…

Saindo da missa, Marthe pede a Vicent e Christian para irem na frente, que ela quer dar uma volta pela vila, para tentar se familiarizar mais com os habitantes, e foi aí que João Simão conheceu, enfim, Marthe, quando ia ele num desses seus cantarolares, ela vinha passando, ouviu e achou graça, parou, sorriu para João que já se emendou a puxar conversa e a elogiar a beleza da mulher, e parece que ela gostou, já passou a olhar João mais detalhadamente, o corpo bem torneado, moreno queimado de sol, coisas que não existem lá para os lados dela, e convidou João para ir no seu acampamento esta noite, que não haveria ninguém por lá.

E não foi só João que conheceu sua musa Marthe, mas Pedro também. Parece que Marthe gostou de ser admirada pelos homens de Liúnas, e Pedro, artesão, grande habilidade nas mãos calejadas pelo trabalho, ombros largos e braços fortes, moreno queimado de sol, foi o bastante para que Marthe o convidasse para ir ao seu acampamento esta noite, pois não haveria ninguém por lá.

Dona Marta, dona Marta, ouve-se do lado de dentro do acampamento. Marthe vai atender, Olá, que bom que você veio, entre, sente-se aqui, diz Marthe apontando para um pequeno sofá incrusto na parede do reboque, Aceita uma vodca, Não senhora, muit’obrig… Tome, beba, você vai se sentir melhor. O calor era intenso, e era inevitável o transpirar dos corpos. Marthe passa o copo, que também transpirava devido à vodca gelada, ela se serve de uma também e senta-se ao lado do homem, tão próximo que faz seus seios roçarem no braço dele, que respeitosamente se afasta um pouco, comenta algo sobre um quadro com a figura de um cavalo negro correndo, pendurado na parede, mas Marthe não lhe dá ouvidos e, no instante seguinte, aproxima-se novamente, pergunta se a bebida está boa sem que ao menos ele tivesse provado, enquanto ela já virara o copo e se servira de outra dose, Beba, ele também vira e ela lhe serve mais, E então, como está a bebida, Tá boa sim senhora, e no instante seguinte ela mexe seus longos cabelos loiros e lisos, fazendo-os passar pelo rosto do homem, que já não tem mais espaço na poltrona para ser respeitador, mas ainda arranja um assunto qualquer para falar, os costumes da vila, as pessoas que conhece, os amigos, inimigos que não existem, já que todos são cordiais e de bem, mas ela não ouve e aproxima lentamente os lábios de encontro aos lábios dele, que só não virou o rosto porque aí já seria demais, além de que uma atitude dessas exigiria um outro instante naquilo tudo, e ele queria, ao mesmo tempo, que aquilo tudo acabasse logo e acabasse nunca. Os lábios se uniram, os dela com os dele, e ele já sentia o calor do corpo dela se aproximando do seu, e ela já podia sentir toda aquela corrente de sangue penetrando nas cavernas mais secretas dele, fazendo enrijecer aquele pedaço de músculo que é o sexo, e já ia o dela também se alimentando de um sem número de secreções, preparando-se para o que parecia inevitável, o encontro dos sexos, o dele com o dela, ela buscando com a língua a língua dele, ele se virando como podia, quase que se defendendo de tão fremente desejo, ela, mais experiente com essas coisas momentâneas, num único gesto arrancou a camisa, expondo um par de seios fartos, brancos feito leite, maravilhosos, e depois arrancou a dele, permitindo agora que os corpos ficassem unidos, um sobre o outro, ela por cima, colada no suor de calor e desejo dele. Ela passa a massagear seus ombros, o peito peludo, a barriga, e quando chega lá, começa uma verdadeira luta, aquele zíper, aquele maldito cinto, depois a calça que não saía pelo pé calçado de botas, e ele com as mãos nos seios dela, com a calça nas canelas, ela tira a dela até o joelho, acaricia o membro dele, forçando-o a acariciar o sexo dela, a euforia não permite a lógica e o sincronismo dos movimentos, e eles ganham o chão, ela por cima e ao mesmo tempo por baixo, um rolar desajeitado e majestoso, de desejo, com as calças meio colocadas e meio tiradas, tentaram, mas não conseguiram, e ela geme e grita palavras que ele não entende, ele pergunta se está machucando, ela apenas geme e mexe a cabeça negativamente, arranca as calça de vez e monta, agora sim, doma seu cavalo, que vai a largos e compassados trotes, e acelerando, progressivamente acelerando, cada vez mais, até a cavalgada em desenfreada carreira, buscando a vitória no último páreo, e gritos dela, gemidos meus, palavras indecifráveis, pulos, gritos, gemidos, e eu pude assistir ao orgasmo dela daqui de baixo, lindo, envolvente, como se fosse um arco-íris a refletir cores maravilhosas, e nem assim ela parou, até que chegou o meu momento, a minha vez de perder o domínio da minha razão e entrar nesse arco-íris de luz ofuscante, ah, agora sim, a golfada do prazer supremo da carne, e largamos nossos corpos um sobre o outro, buscando o relaxamento do ato, que por ser o primeiro não foi nada mal. Ela me perguntou se seu corpo estava a pesar sobre o meu, as primeiras palavras depois de cinco minutos de silêncio, eu disse que um pouco só, e então ela se levantou, rompendo a inércia natural e constrangedora, e eu me levantei em seguida, começamos a vestir nossas roupas, ela me ajudou com o cinto, eu a ajudei com a camisa, como se fôssemos velhos parceiros sexuais, eu disse, Já vou indo, e ela, de costas para mim começou a dizer, Tudo bem, e terminou por dizer olhando para mim, com um rosto lindo e satisfeito, não bem para mim, mas para além de mim, com os olhos longe, parecendo atravessar minha alma e ganhar um deserto inteiro por trás, mas rapidamente recompôs o olhar em meus olhos, e apenas, disse, A gente volta a se encontrar, Tudo bem.

E tudo isso aconteceu com João Simão e com Pedro Tristão também, ao mesmo tempo, sem ter o que tirar nem o que pôr, como se fosse possível os dois desfrutarem dos mesmos desejos e dos mesmos prazeres ao mesmo tempo, e um não sabe do outro, mas também não tem muita importância, que embora apaixonados, os dois, são homens de convicta solidão, e não vai ser uma aventura, ainda mais com uma mulher que deve voltar logo para sua terra, que eles vão abrir mão de suas maneiras de viver. Só o que aconteceu de diferente de um para o outro foi quando Marthe perguntou sobre o que faziam, e um respondeu Toco cocho, canto moda, conto casos, não tenho uma ocupação para o sustento, que nem preciso, pois alimento tenho do que planto no meu quintal, e o outro respondeu Faço cochos e móveis, peças de madeira e de cipó, sou artesão, e só. Dito isso, Marthe ficou de aparecer na casa de um para ouvir moda, na de outro para ver artesanatos, embora sabemos que serão outros os motivos das visitas.

E ao se encontrarem Pedro e João, poderiam ter dito Como vai João, Bem, Tá indo para casa, Tô, Se tiver um tempinho para um bate-papo, Agradeço mas deixa para uma outra vez, preciso descansar e pensar numas coisas que me aconteceram, Tá bom, assim eu também faço isso que estou necessitado, Até mais ver, Até. E por ser o mundo redondo e dar voltas, talvez tenha ele dado duas voltas ao mesmo tempo, ou ainda pode ser que tenha passado duas vezes pelo mesmo lugar, só que uma vez com Pedro Tristão e outra com João Simão. Quem aqui vai saber dessas coisas…


14.

Interessante os destinos, que não escolhem horas nem lugares para as coisas. Não se conhecendo Pedro Tristão e João Simão, nem um nem outro, embora morando na mesma vila, já se viram e sabem um da vida do outro, como todos sabem da vida de todo mundo, mas ninguém liga. Sabe Pedro da história de João Simão, as mesmas coisas que todos, que é filho sem pai de criação e já sem mãe, que tem uma vida diferente daquela que se acha certa, que é a do trabalho, que mora duas ruas atrás da igreja, perto de sua casa, e que toca cocho. Só isso interessa e já é o suficiente para Pedro Tristão, que nunca careceu de conversar com João. Sabe João Simão as mesmas histórias que todos sobre Pedro. Sabe que Pedro Tristão é rapaz bem cuidado, que teve mãe, hoje já morta, que por falta de um pai teve dois, um de coração e nascença e outro só de coração, que por muito tempo desfrutou o prazer e os cuidados dos dois pais e da mãe, mas quando um dos pais se foi, o só de coração, já logo se foram o outro e a mãe, e hoje está só, como ele. Sabe também que ele fabrica cochos, que aprendeu com Antônio Constante, que talvez tenha sido o melhor fabricante de cochos do mundo — se é que se fabrica cochos em outros lugares que não por aqui —, que mora duas ruas atrás da igreja, perto dele, e que tem o hábito de trabalhar todos os dias, exceto domingos de manhã, que vai à missa, pois já se viram lá. João Simão, como bom trovador, já tentou jogar conversa com Pedro, mas este, recatado e tímido, não lhe deu muito ouvido, e não foi por maldade não, foi por ter muita coisa pra fazer mesmo, e não ter tempo de parar.

Pedro Tristão e João Simão se encontram nessa noite, na vila, quando ambos voltavam do acampamento de Marthe, como se possível fosse ambos terem feito o que fizeram ao mesmo tempo. Que João Simão vive andando por aí, isso todos sabem e não irão estranhar, mas Pedro Tristão caminhando a estas horas, isso não é comum. Boa Noite, Tristão, Boas Simão, Que ares te fazem sair de casa a estas horas, Nada demais, não estou a pensar em algo que tenha me acontecido, só saí para pegar um ar que o calor está demais, É mesmo, nem eu estou a pensar em nada, é o calor que não estou agüentando, mas eu já vou indo, Sente-se um pouco, João, vamos cantarolar alguma coisa, quem sabe esse calor não se distrai e nos deixa em paz, Está bem, mas só um pouco, que bem sei que acordas cedo e precisas dormir. E começou João a cantar e a tocar sua viola de cocho, e Pedro, fascinado pela habilidade de João em conduzir o instrumento, esqueceu-se das horas, e o povo que passava não acreditava no que via, Pedro trabalhador e João desocupado, que é como chamavam João, que de desocupado sabemos não tinha nada. E lá ficaram a noite toda, a vila começou a ficar deserta e eles nem se deram conta, madrugada a dentro, ninguém mais na rua, só eles, e Pedro prestando demasiada atenção às mãos de João Simão, que hora ou outra parava de tocar para explicar a Pedro as posições dos dedos de uma mão sobre as casas e o dançar da outra sobre as cordas, A quinta corda é a dó, a quarta é a sol, a mais grave, a terceira é a lá, a segunda é a ré e a primeira é a sol, Mas isso eu já sei, já que fabrico cochos preparo também as cordas, da tripa da ema ou do bugio, e Pedro até pegou o cocho e arriscou um ponteio tímido, que João incentivou dizendo É isso mesmo, o jeito você já leva, O que não sei é formar um som com um monte de cordas juntas, Mas isso não é lá tão difícil, a quinta solta, a quarta também, a terceira você prende na terceira casa, a segunda na segunda, e a primeira solta, pronto, dó maior. E conversaram, cantaram, e só pararam quando o dia já ameaçava nascer, os galos, curioso relógio natural, começaram a cantar quando o sol ainda não despontava, mas parece que os galos possuem um dom especial, fazendo-nos pensar que é para isso que foram feitos, que percebem pela brisa quando a manhã está para chegar, e depois que cantam, em mais ou menos uma hora estará o sol a nascer. Foi quando Pedro Tristão falou, Já é tarde, ou cedo, não sei, sei que já é hora de ir, Também vou indo, e levantaram juntos, caminharam juntos, que moravam para o mesmo lado. Chegando em sua casa, Pedro parou, e quando já ia João se despedindo, Pedro convidou-o para entrar, para conhecer seu cocho de estimação.

Frido caminha pela praça, tranqüila e sossegadamente, como num dia qualquer, cumprimentando os fiéis sorridentes, felizes pelo trabalho realizado, e feliz também Frido com o próprio trabalho, o divulgar da palavra de Deus, a imprensa divina, sendo ele o repórter dos céus, cargo importante, já que outro jornalista não há, e poderia muito bem se beneficiar desta posição, já que só cabe a ele selecionar o que o povo deve ter conhecimento ou não, mas Frido é boa pessoa, e como dizem, boas pessoas atraem maus presságios, e Frido parecia estar em sintonia com esse dito popular, já que sua alegria parece não ter sido feita para durar mesmo, pois eis que surge no final da rua, Christian e Vicent, vestidos com ternos, falando algo entre si e apontando para ele, e passam a correr na direção de Frido, que foge, e eles gritam, Hallo Sie, Halt!, e Fritz não obedece e continua correndo, desesperado, sem olhar para trás, que atrás sabe estarem Christian e Vicent, com olhos incendiados pelo inconfundível ódio, quando Frido ouve o disparo, pá, e mais um, pá, e outro, pá, e depois sente os projéteis perfurando sua carne crua, o primeiro na perna, desviando-lhe os passos do caminho do Senhor, mas ele continua, pois, embora já tenha entrado na vereda dos perversos e andado pelos caminhos dos maus, Frido se recuperou, e não se estreitam seus passos, e o segundo tiro foi nas costas, varando os pulmões, mas Frido é forte, velho mas forte, já que andou boa parte da sua vida a passos contados nos ensinamentos de Deus, e disso vivem os homens, nisso está o suspiro da vida, e o outro tiro foi na cabeça, e, sabendo-se pertencerem os homens bons aos planos do coração, Fritz não pensou com o coração, já que não arrependido, e acorda, em poças de suor. Uma noite ruim de sono, pesadelos relacionados aos seus conterrâneos alemães, seus maiores medos sendo trazidos à tona, revelados a ele mesmo, que queria esquecer. Frido só tinha um desejo, que era o de ser poupado do sofrimento, uma morte em preto e branco, desprovida de qualquer significação, o que provavelmente não aconteceria, e já imaginava como seria sua morte, se seria torturado ou se seria levado vivo, o que é pior, para servir de exemplo, será que já não bastava o que sofria sozinho, e queria arrumar uma maneira de morrer em paz consigo mesmo, de abandonar esses seus tormentos nos corredores do seu passado, Oh Deus, quão caro é o que me cobras.
Lamenta Frido sua condição de padre pecador, que é o mesmo do que estar entre a cruz e a espada e não saber ao certo se a espada é de ferro ou de borracha, ou se é a cruz feita para adorar ou para carregar e ser pregado a ela.

Duas suaves batidas na porta trazem Frido de volta ao chão, embora saibamos que não estava ele a voar, fisicamente, apenas em pensamentos, Entre. Marthe entra, dizendo querer se confessar. Frido, ainda um tanto impressionado pela sua própria imaginação, querendo não acreditar mas já se rendendo ao que julga fato, imaginando que tudo não deve passar de um truque para apanhá-lo, não consegue disfarçar seu nervosismo, mas mesmo assim conduz Marthe até o confessionário, Por aqui, minha filha, ajoelhe-se que já venho lhe ouvir. Frido entra no confessionário e Marthe toma sua posição, ajoelhada frente o tribunal de penitências. O que te afliges, minha filha, Padre, perdoa-me porque pequei, Abra teu coração para Jesus, minha filha, que ele é benevolente e saberá te dar o perdão, que pecadores somos todos, e assumir o pecado é querer confessá-lo ao Senhor, e só isso já é uma dádiva que poucos têm, Cometi adultério, padre, Estou ouvindo, filha, Não pude me conter, num breve momento o desejo da carne foi mais forte que minha fé na palavra de Deus e me rendi, Não diga isso filha, que a palavra de Deus é maior que qualquer coisa, o importante é o arrependimento, e padre Frido, ao dizer estas palavras, lembra que ele mesmo não se redimiu, e questiona como pode levar a palavra de Deus se não é capaz de cumpri-la plenamente, que é o mesmo que contar algo que não se viu, apenas se ouviu, e inventar logo coisas para ornamentar o original, querendo torná-lo mais interessante, mais convincente, segundo nossa concepção, e era isso que vinha acontecendo, Frido dizendo para as pessoas fazerem coisas que ele próprio não era capaz de fazer, E não foi só uma vez não, padre, continuou Marthe, Mas duas, Sei filha, sei, E não sei se me arrependo, já que foi muito bom, e… Frido já não prestava mais atenção ao que Marthe dizia, tentando resolver seu próprio e maior pecado, com sua consciência, se é que ainda há tempo para ele, que se formos ver e contar, tempo suficiente já teve, embora Frido ache que para essas coisas uma vida só não basta, mas o que nós não sabemos é se Deus é lá tão paciente assim com esses assuntos, que se duvidar, talvez já esteja Frido condenado há muito tempo, e tudo o que vem fazendo já não tenha mais valia, não que não seja de todo válido, pois para os liunenses é muito válido o que faz padre Frido, mas talvez não seja mais válido para ele, no seu galgar rumo ao paraíso, … e é isso, padre, mereço o seu perdão, Claro minha filha, claro, embora o perdão não seja meu, pois não sou eu que estou a te julgar, tenho procuração, uma espécie de mandato divino, e todos somos inocentes perante Jesus, isso eu posso te garantir minha filha, reze lá dez ave-marias e dez pai-nossos e fica com Deus, Das Segnen, Priester, Gott… De-Deus te abençoe, minha filha, Deus te abençoe.


15.

Tristão desceu o cocho da parede, brilhante e imponente. Simão ao pegá-lo ficou tomado por um fascínio quase infantil, uma vontade de gritar de alegria, como se tivesse ganho aquele presente que havia esperado a vida inteira. Era um cocho diferente dos demais que se conhecia. Simão não fez nenhuma pergunta, talvez por não conseguir falar, e foi explorando o cocho, sozinho. A primeira particularidade era ter seis cordas, uma corda extra entre a segunda e a terceira, ao invés das cinco tradicionais, e João Simão já logo que pegou fez vibrar a corda desconhecida, querendo ouvir o que tinha ela a dizer, já que nunca antes esteve presente nos cochos que tocava, Ela disse um lá requintado, falou João, fascinado, muito mais para ele do que para outro alguém ouvir, e saiba-se que requintado, em linguagem de tocadores de cocho, é o mesmo que oitava acima em linguagem tradicional de música, e João conversou com a nova corda por alguns instantes, quando enfim passou para outro detalhe que diferenciava este cocho de Pedro Tristão dos demais, a sonoridade, que era única, quase divina, completa, diferente daquele som meio rachado e abafado que os cochos tinham, e observou João que isto se dava devido a duas coisas, uma era o buraco no meio do tampo, que permitia o som se propagar com maior intensidade, e a outra era os trastes que dividiam as notas, feitos de metal e cravados no próprio braço, diferente dos outros cochos, com trastes feitos de pedaços de barbantes ou algodão fiados em casa e encerados com cera de abelha, amarrados em volta do braço, fazendo uma separação não tão precisa dos semitons. João tocava as cordas e aproximava o ouvido do buraco, querendo ouvir todos os sons que dali saiam, os sons perfeitos, bem divididos, semitom por semitom, sem perder uma só freqüência, Foi você quem fez este cocho, Pedro, Sim, baseado num sonho de Antônio Constante, que Deus o tenha, que teve a visão desse cocho, e da maneira de faze-lo… No sonho, ele andava entre árvores num vale que não é perto de lugar nenhum que se conheça, e lá, encontrou uma árvore diferente, que se destacava das outras, parecendo quase brilhar, e essa árvore especial começou a se retorcer, a mudar de forma, e soltava gemidos enquanto se moldava, gemidos de dor ou de prazer, não soube contar Constante, e a árvore foi estalando, tornando-se ela num pedaço único de madeira, já no tamanho certo de um cocho, e um sol muito forte secou a madeira, que foi se escavando e modelando até dar num cocho, depois veio o tampo e todas as outras partes, de uma vez, e tinha estas características, uma corda a mais, os trastes de ferro a separarem as casas, um buraco, como se fosse uma boca no tampo, e depois de olhar bem o cocho, Antônio Constante tomou-o nas mãos, para apreciar, e sentiu que era um cocho diferente, especial, sentiu que um dia esse cocho seria de muita utilidade, talvez não para ele, mas para alguém muito querido, só que Antônio Constante não teve tempo de realizar o sonho, então me contou e me orientou, lá de cima, para que eu fizesse seu cocho. Estas e outras conversas tiveram Pedro e João, dando a entender que ali nascia uma amizade, que poderia durar por muitos anos, se algo não viesse a acontecer a ambos. E aquela escultura de mulher começada ali no canto, quem é, Não é ninguém não, é de minha cabeça, Tá ficando bonita, tem certeza de que não é ninguém conhecido, Tenho, E como vai se chamar essa escultura, Vênus, Não, Marthe de Liúnas.

Conversaram muito Pedro e João, e descobriram que, um sabendo fabricar cochos e outro sabendo tocar, poderiam se ajudar, já que quem fabricava queria tocar e quem tocava queria fabricar. Firmaram acordo de aprender e de ensinar, e será daí que nascerá a amizade. E lá do céu, entre anjos, Antônio Constante, que acompanhava toda a conversa de Tristão e Simão, quando viu eles darem as mãos, em sinal de acordo firmado, acordo que era tanto de trabalho quanto de amizade, suspirou, dizendo, Obrigado, Senhor, que já não era sem tempo. Agora deixe, que o destino dará conta do resto.

Simão vai até a igrejinha do padre Frido para uma conversa, como sempre fazia, só que desta vez ia diferente, ia contente — aliás, contente sempre esteve, pois nunca se viu Simão triste, mas era um contente diferente, que não é qualquer um que saberia explicar, só quem encontra aquelas penas de que já falei, citadas por Antônio Constante. João entra na sacristia e já vai logo dizendo, Padre Frido, ontem fiquei a conversar com Pedro, o Tristão, e descobrimos que temos muitas coisas em comum, até nos acertamos de ele me iniciar nas artes de fabricar cochos e eu o ensinar as artes de tocar e cantar e… Padre Frido, o senhor está me ouvindo, Frido estava cabisbaixo, pensativo, com um brilho alucinado de pavor em seus olhos, um brilho avermelhado, que Deus nos perdoe pensar que estava possuído, mas ainda assim respondeu, sem olhar para João, Sim Simão, estou a te ouvir, e digo que já sabia que tinham, Tristão e tu, muito em comum, mas não era eu que tinha que o saber, e sim vocês, e não sei se já contei em algumas das minhas histórias, que não são lá de todo verdades mas é no que eu acredito e o que eu acho o mais certo e o mais justo, que Deus nos fez à Sua semelhança, então, se todos somos semelhantes a Deus, seremos também semelhantes a todos, mas nem sempre isso acontece, e aí eu me pergunto, teria Deus criado as exceções propositadamente ou foi um erro, e esta é apenas uma das inúmeras coisas que me perturbam mas ninguém sabe, só eu, e agora você, que me apanhou desprevenido, que se pareço sempre em paz para vocês, é porque não me vêem quando estou sozinho com as minhas dúvidas e os meus medos, mas deixemos estas coisas pra lá, o que queres me contar, Simão, Era só isso, padre, que o senhor sabe como eu careço de amizades, e achei importante contar-lhe que conquistei uma, mas diante de tudo que o senhor falou, vejo o quanto fui mesquinho, Deixe disso João meu filho, que cada um é abençoado com os pensamentos que quer. Só quero que saibas que Pedro também é carente de amizades, assim como tu, Sim, Ótimo, para que não haja enganos, que Deus abençoe vossa amizade, Obrigado padre, A propósito, Simão, já que agora são amigos, e sendo vocês dois as pessoas que mais eu tenho confiança por estarem sempre por aqui a conversar, vá lá e chame Pedro, que tenho algo importante para vos falar.

E sem entender muito, mas também não precisava, que os olhos de Frido já davam a entender que alguma coisa não ia bem, foi Simão até a casa de Pedro, e bateu, Pedro, Pedro, O que foi Simão, Desculpe atrapalhar teus trabalhos mas padre Frido mandou chamar para ir lá ter uma conversa, eu e você, Eu e você, como, É que passei lá como sempre faço e contei de nossas conversas, ele até abençoou, mas depois, uma tristeza sem tamanho se pôs nos olhos dele, e era como se o mundo todo não passasse de hoje, e tudo que está por fazer ou por falar devesse ser resolvido o mais rápido possível, sem delongas e sem demoras, que o tempo parece ser o maior inimigo, ou pelo menos um dos maiores, que outros deve haver, devido ao pavor nos olhos do padre, só vendo, Então vamos, Simão, que padre Frido deve lá saber o que faz, Deus te ouça Tristão, Deus te ouça.

Ainda é o mesmo aquele céu. O mesmo que afugenta os pássaros, que percebem não terem o seu voar abençoado pelas graças do Senhor, que deve ele estar ocupado com outros expedientes. Se Deus é capaz de ficar desatento a Liúnas por tanto tempo não se sabe, mas estando ou não, não seremos nós que iremos contestar os expedientes divinos e decidir, por inocência de querer ajudar ou por puro egoísmo, onde deve Deus fixar seu olhar e a que horas, que Deus deve muito bem saber ao que deve dar prioridades.

No acampamento, Marthe conversa com Vicent e Christian. Falaram sobre padre Frido ser alemão e o que iriam fazer a respeito. Marthe, que viera apenas para os trabalhos de tradução, teve que se calar.


16.

Nem tudo é só tristeza, nem tudo é só alegria. Dentre tantas incertezas está a nossa própria vida, que seria mais fácil não termos um cérebro que exercesse tão complicada função que é a de pensar. Não a de simples pensar, que esta até os objetos seriam capazes de ter, se tivessem vida, mas a de elaborado pensar, que podemos chamar de matutar, que é aquele acumular de coisas que vão se ligando, umas com as outras, no decorrer da vida, e, às vezes, mostrando-nos o quanto estávamos errados, e por quanto tempo nos deixamos enganar por esse erro, tendo agora que correr atrás do que achamos o certo, ao menos por enquanto, e tentar consertar tudo aquilo que deixamos passar de uma maneira que não era a certa, antiga e desusada, mesmo que sem querer, sem maldade, mas ainda assim diferente da nossa verdade. Não bastasse esse matutar, que são nossas atuais certezas, ainda temos nossas desconfianças, e nada pior que um homem desconfiado, pois sabemos que não há no mundo certezas suficientes que o faça deixar de lado, totalmente, estas dúvidas, e ao menor sinal de que algo não vai bem, todas as certezas de outrora desmoronam, como se nunca tivessem existido, e a dúvida vem no lugar, agora querendo ser certeza, o que lhe dá ainda mais força. Talvez, o remédio mais eficaz para tanto questionamento e dúvida seja a morte, já que na morte todos nossos valores passam pela renúncia, pelo sacrifício, pelo despojamento, e deixam, num instante, de serem valores, toda aquela pressa que tínhamos para ir a algum lugar porque havíamos combinado com fulano, fazermos algo porque prometêramos a beltrano, juntarmos um dinheirinho aqui outro ali para comprarmos aquela rede feita de tecido resistente de linho ou algodão, e agora que meus olhos vêem a morte, abomino a mim mesmo e me arrependo, no pó e na cinza, pois com meus próprios olhos vi em Cuma a Sibila, suspensa dentro de uma ampola, e quando as crianças lhe diziam Sibila, o que queres, ela respondia, Quero morrer.

Frido rapidamente acomoda Pedro e João, que acabaram de entrar na sacristia. Meus filhos, o que irei vos falar pode chocá-los muito, ou até decepcioná-los, mas desde já, peço que me perdoem, que tudo que fiz foi de coração, com todas as boas vontades que possam existir. Vocês não eram nascidos quando cheguei aqui, mas seus pais… desculpem, os mais velhos devem se lembrar, eu cá cheguei já tem uns quarenta anos, vindo da Alemanha, sabia falar um pouco vossa língua, e cheguei dizendo que era padre, que iria construir uma igreja e tudo mais, mas se para ser padre é preciso estudar, eu não sou padre e nunca fui, ao menos nunca estudei para isso, portanto, não sou autorizado a ter uma igreja e a divulgar a palavra de Deus. Outra coisa, eu não vim para cá porque quis, vim fugido da polícia, era um criminoso procurado, ofereciam dinheiro por mim, vivo ou morto, por crimes de sonegação fiscal, que é o não pagar os impostos do governo e ganhar dinheiro de uma forma desonesta, por crimes de prostituição, que é o explorar do corpo dos outros através do sexo para se ganhar dinheiro, e ainda por crimes de jogo ilegal, que é o manipular e o roubar no jogo para se ganhar dinheiro, e também por ter matado um sem número de pessoas que se metiam no meu caminho e tentavam atrapalhar os meus negócios, e para fazer tudo isso eu tinha muitas pessoas que trabalhavam para mim, que eu também eliminava de tempos em tempos, e assim fui enriquecendo, cada vez mais, até ser descoberto e perseguido ao ponto de não mais conseguir viver em paz, embora em paz eu nunca vivi e acho que nunca viverei, mas nessa minha necessidade de fugir acabei vindo parar aqui, e já estava decidido a não mais praticar o mal, tanto que não trouxe dinheiro algum, apenas uma Bíblia, livro que antes nunca havia lido, e cá chegando tive a idéia de fazer a igreja, já que aqui não tinha, e tudo isso eu fiz de coração, posso jurar a vocês, se é que minha palavra quando verdadeiramente minha vale alguma coisa. Mas estou contando tudo isso porque sinto que algo vai me acontecer, tenho quase certeza, e aquele alemão mais velho, Christian, ele me assusta, se eu sumir ou morrer de repente, gostaria que soubessem disso, talvez assim minha alma fique mais aliviada e consiga subir aos céus, já que mais leve. João Simão e Pedro Tristão nem piscavam e mal entendiam, que era muita coisa ao mesmo tempo, mas já estava contado mesmo, e o que eles mais puderam perceber foram as lágrimas que brotavam dos olhos de Frido, a aflição que ele sentia ao falar, o nó desafogado do peito que sempre soube reter, as mágoas, não só as próprias, que agora desabafava, mas as de todo mundo.

Embora a razão seja comum a todos, cada um procede como se tivesse um pensamento próprio, e isso não poderá jamais ser contestado, já que Deus deu a cada um as faculdades do pensamento. João Simão e Pedro Tristão deixam a sancristia calados, sem olhar um para o outro. Caminham até a praça e separam-se, cada um pensando Acho que vou lá ter uma conversa com dona Marta.

E o que é o pecado afinal, senão a avareza, a gula, a inveja, a ira, a luxúria, o orgulho, a preguiça, a violação da lei de Deus em matéria grave, o pecado de Adão e Eva, que por esta causa, todos os seus descendentes, ou seja eu, você, ele, ela, aquele outro e aquela outra, os que conhecemos e os que não conhecemos, os que já morreram e os que ainda estão para nascer, enfim, todos os que na Terra andam, andaram ou virão a andar, já nascem em estado absoluto de culpa, sem culpa ter do que acontecera, e sem desfrutar, ao menos, do que eles desfrutaram, mas imaginamos, que se Adão trocou todo aquele Paraíso certo por um quase inferno de incertezas, o que ele e Eva fizeram deve ter sido muito mais do que os livros nos contam, que tamanho prazer que sentiram, se revelado, poderia causar uma inquietação tamanha no mundo que nem Deus e o Diabo juntos conseguiriam volver a paz. Mas o pecado, que é o enfraquecimento da graça, algo terrível, espantoso, ou algo extraordinário, desafiador, inovador e instigante, que nos rouba a razão por poucos segundos, suficientes para nos desviar de um caminho outro e tomar este agora, do descobrimento, do rompimento, da transgressão, do vício, da juventude, da crueldade, da pena, da falha, da lástima, da tristeza, do erro, da culpa que não temos, já que nos acomete, estes pensamentos, sem os querermos, sem os matutarmos, sem os buscarmos em algum canto da memória, ou se fazemos, como já disse, é de maneira outra que por própria vontade, representado mentalmente em obediência a um impulso não ditado pela razão, sentimento que incita alguém a atingir algum fim, aspiração, anseio, desejo, sem capacidade de escolha, de decisão, partindo de uma entidade superior, uma qualquer, já que basta ser superior para nos vencer os desejos e as vontades próprias. Mas, já diziam os mais antigos, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, ao menos algumas, que dependendo da tentação, que é aquela disposição e ânimo para a prática de coisas que outros podem achar diferentes ou, mais ainda, censuráveis, dependendo do grau de julgamento de cada um, dependendo da tentação, podem as vontades mudarem nunca, nunca acabarem nem morrerem, podem sim, não raro, a vontade ou desejo ou tentação ou pecado acabar matando o corpo que carrega a cabeça em que fez morada, ou coração, que bem pode também a vontade ou desejo ou tentação ou pecado fazer morada em corações, e uns dizem que é este o pior tipo que pode existir, o que se aloja no coração, que comparado ao que se aloja na cabeça, em muito é pior o coração nessas coisas de guardar sentimentos.

E não é errado dizermos que todo homem disso é formado, em graus maiores ou menores, é verdade, mas todos carregam, pelo menos uma vez na vida, uma vontade ou um desejo ou uma tentação ou um pecado, original ou copiado, emprestado ou roubado, e até comprado, alguns, e o que vai diferenciar a importância ou a gravidade de cada vontade ou desejo ou tentação ou pecado é o grau de influência que ele possa causar, como já foi falado do pecado de Adão, e não sei se seria mais ou menos certo falar o pecado de Eva, ou se o mais correto seria mesmo falar o pecado de Adão e Eva, juntos, sem atribuir a culpa ou a glória mais a um do que ao outro, embora já pareça ter um pouco mais de peso Adão, por ter seu nome em primeiro lugar na frase, que bem poderia ser o pecado de Eva e Adão, ficando até mais sonoro e poético, parece. Mas o que importa e era o que dizíamos a princípio, é a influência da vontade ou desejo ou tentação ou pecado que os acometeu, Adão e Eva ou Eva e Adão, que a muitos veio comprometer, condenando todos a meio caminho do inferno, já que antes o Paraíso era a única certeza e morada e agora temos que nos submeter a leis e regras que não nossas verdadeiramente, temos que nos subjugar sem conhecer, em profundo, as regras do jogo, todos os senões e poréns que compõem os Não farás… Não cometerás… e todos os outros Nãos.

Marthe aproxima os lábios ao encontro dos lábios dele, num ritual que já conhecemos. Embora ele tente se desvencilhar, difícil é quem consiga resistir aos encantos de uma mulher, e os lábios se unem, novamente, e ele que havia ido lá para falar das aflições de Frido, de Christian, já sentia o calor do corpo dela se aproximando do seu, e ela novamente sentiu aquela corrente de sangue descendo as corredeiras dele, rumo às partes mais baixas, fazendo enrijecer o músculo do sexo, e o dela que não é músculo para fora como o dele mas para dentro, vai se alimentando das sagradas secreções, numa preparação ao que logo vai novamente acontecer, o duelo dos sexos, que de sagrado mesmo nada tem, é tão somente modo falar, que pensamos ser pelo prazer que nos causa, mas o prazer nem sempre é sagrado, aliás, difícil é o prazer que seja sagrado, a nós, pois sagrado é aos deuses, pois já aprendemos que devemos nos abster de coisas sacrificadas aos ídolos: de sangue, de animais sufocados e de fornicação, fazendo bem nos resguardar. Marthe arranca a camisa e depois arranca a dele, os corpos unidos, um sobre o outro, a calça nas canelas, a euforia que não permite a lógica e o sincronismo dos movimentos, mas agora é diferente, ele já não a vê como aquela mulher meiga de antes, já que chega uma hora, cedo ou tarde, acabam-se os piedosos, mas os que aos outros falam com falsidade, com lábios lisonjeiros e coração refolhado, ainda assim, são donos de seus lábios, e por isso existe a dúvida de quem ela realmente seja, e enquanto fazem aquilo, ele pergunta, conta o que sabe, o que padre Frido pensa, e ela geme, ouve, fingindo indiferença e já fingindo também prazer, que pude assistir daqui de baixo, um orgasmo meio real meio forjado, enquanto dizia que minha história era absurda, e não sei porque acreditei, e ela não parou, e só depois que ela negou é que pude alcançar a minha realização, sentir minha lava cor de madrepérola jorrar, ah, agora sim, largávamos nossos corpos um sobre o outro, buscando o relaxamento, que por ser o segundo não foi nada mal. Ela me perguntou se padre Frido havia contado a mais alguém, mas nem ouviu minha resposta, como se já soubesse, como se alguém já houvesse lhe contado, e ela se levantou, disseminando a imobilidade natural dos corpos, e eu me levantei em seguida, começamos a vestir nossas roupas. Eu disse, Já vou indo, e ela disse, Tudo bem, e não disse A gente volta a se encontrar.

E tudo isso aconteceu com Pedro Tristão e com João Simão também, ao mesmo tempo, sem ter o que tirar nem o que por, como se fosse possível os dois desfrutarem dos mesmos desejos e dos mesmos prazeres ao mesmo tempo, incursarem nos mesmos erros, que não foram os primeiros nem serão os últimos a serem enganados pela habilidade de fingimento de uma mulher, se nem Adão, de quem há pouco falávamos, que só tinha duas mulheres para escolher, acabou escolhendo a errada, que será de nós, num mundo bem mais povoado, onde as vontades, ou desejos ou tentações ou pecados são maiores em número e grau, às vezes em gênero também, proporcionalmente também aumentam as probabilidades de engano, se é que podemos usar destas ciências de obtenções, organizações e ilações nestes casos.

E por ser o mundo redondo e dar voltas, talvez tenha ele dado duas voltas ao mesmo tempo, ou ainda pode ser que tenha passado duas vezes pelo mesmo lugar, só que uma vez com Pedro Tristão e outra com João Simão. Quem aqui vai saber dessas coisas, só sabemos que naquela noite, três sonhos iriam se encontrar. Num colchão de nuvens, Marthe, Pedro e João, só que puros os dois, já que anjos, e ainda mulher ela, abraçados, com padre Frido, também puro, abençoando a união, e Marthe, sem saber por que e sem nada poder fazer para que isso mude, chora a morte de Pedro e João, e até a de Fritz, ou Frido, que é como tinha ele morrido no sonho.


17.

Conforme combinado, João vai até a casa de Pedro a fim de tratar dos assuntos que haviam feito acordo, que era João ensinar Pedro a tocar cocho e Pedro ensinar João a fabricar cochos. Pedro e João eram pura euforia. Ambos queriam logo aprender mas também não viam a hora de ensinar, então as sessões intercalavam-se, ora Pedro ensinava, ora João.

Primeiro, João, deve-se escolher a árvore, na beira do rio, com todo carinho, que pode ser a figueira, a orumbela, o sarã, o sarã-de-leite, a urucurana, a timbuva ou o mulungu, e vê-se se está boa para o corte fazendo um talho na raiz, se ela estiver molhada, tem-se a árvore certa. Depois, é preciso ser colocada no forno, para ressecar, mas se quiser um cocho com uma sonoridade perfeita como o meu, deve deixar que a madeira seque sozinha, uns cinco anos mais ou menos, conforme contou Antônio Constante no seu sonho, mas não é o caso agora, que estamos a aprender e a ensinar. Corta-se a madeira nesse sentido, o das fibras, e deve-se começar a cavar a madeira do meio para fora, assim, respeitando a forma do cocho, e quando terminado, vem o tampo, que deve ser feito de Urumbeva, se possível, que é madeira esponjosa, e lamina-se a madeira assim, com um canivete, e depois lixa-se assim, aí faz-se a boca, e colamos as partes entre si, primeiro o tampo, passando a ponta da faca, recolhendo-se o sumo, assim, tirando-se o excesso de cola dos lados, e depois enfaixa-se o cocho com barbante, assim. Agora vem o cavalete, as pestanas, a palheta, as cravelhas, que devem ser esculpidos assim. Depois, pode-se fazer aplicações de cedro sobre o cocho.

Pega-se o cocho desse jeito, Pedro, que pode ser ponteado ou rasqueado, assim, e bate-se nas cordas assim, com a ponta das unhas, e as casas, aqui, é que vão dar os tons das notas, e dependendo do jeito que você prender as cordas, terá um acorde, esse é o de dó menor, esse de dó maior, são maiores e menores os acordes por causa das distâncias das notas, é fácil, como uma conta de somar, um tom, meio tom, então é menor, um tom, um tom, então é maior, e isso vale para todos os acordes, este é o de ré maior, e este o de ré menor, este o de mi maior, de mi menor, fá maior, fá menor, sol maior, menor, lá maior, menor, si maior, menor, e cada nota e cada acorde tem seu sustenido e seu bemol, que esses nomes aprendi num livro que minha mãe me deixou, ainda bem que aprendi a ler, mas o que são esses sustenidos e bemois, são aquele meio tom para cima e meio tom para baixo, assim, e vale para todas as notas e para todos os acordes, que cada um vai ter sua escala, que são as notas que combinam, que é a mesma conta que já falei, tom, tom, meio tom, tom, tom, meio tom, para maiores e tom, meio tom, tom, tom, meio tom, tom, tom para menores, e a outra mão, no rasqueado, pega todas as cordas de uma vez, assim, e no ponteado, dá uma pinçada na corda, ou em duas, assim, com a ponta dos dedos ou com as unhas.

Passaram-se as horas, Pedro e João entretidos em seus aprenderes e ensinares, enquanto Christian, Vicent e Marthe conversavam novidades, ficando todos a par de tudo. A esta altura, todos já saibam demais.

Por mais que se queira, por mais que se clame, por mais que se ore, por mais atribulado que seja nosso rogar, não estamos salvos dos lábios mentirosos e da língua enganadora, e a palavra que pode parecer benigna, num instante torna-se maligna, o caminho que parecia reto passa a vergar, a luz que parecia brilhar passa a embaciar, e não adianta sabermos que o honesto e justo prosperará e o perverso e desonesto não prosperará, pois ambos colherão frutos de sua própria plantação, que ainda assim, haveremos de cruzar destes pelo caminho, querendo nos mal-conduzir ou até mesmo nos frear, e talvez existam estes por não saberem das escritas divinas, mas a maioria sabe, e faz com pleno conhecimento da causa, que quando se dá para o mal não há doutrina ou ensinamento que o contrário faça, por mais que se queira, por mais que se clame, por mais que se ore.


18.

O dia amanheceu cinzento hoje, e uma fina garoa anuncia que será um dia triste, um dia que marcará a vida do povo de Liúnas do Norte, e veremos que sim, para todos os liunenses, mas em especial para Pedro Tristão, João Simão e padre Frido, que embora não saibam, estão com as horas contadas, e mesmo que já soubessem, nada poderiam fazer para impedir que se realize o que já está escrito.

Pedro Tristão e João Simão foram falar com padre Frido, querendo aliviar-lhe o coração do medo que se apoderava dele. Entraram na sancristia e lá estava o padre, dando a impressão de estar lá desde a última vez que se encontraram, há dois dias. Padre, o senhor está bem, Filhos, por favor, preciso ficar só, preciso me preparar para a morte, preciso saber se vou para o céu ou para o inferno, Deixa disso, padre, nada daquilo que o senhor falou procede, tudo não passa de coisa da sua imaginação, já está tudo bem, amanhã é dia de missa, o senhor vai ver, tudo vai continuar normalmente, nossas vidas com a mesma dose de ajustamento de sempre, É padre, tudo vai dar certo, e quanto àquilo que o senhor nos contou, do seu passado, pode ficar sossegado que vai para o túmulo com a gente, não é João.

Mas nem mesmo Deus podia mudar a situação, não queria mais Ele consertar o que já estava encaminhado, já que distraíra-Se de Liúnas por tempo demais, ou Ele próprio teria encaminhado tudo isso, se não há tempo demais para Deus. Christian e Vicent ganham a praça, rumo à igreja. Por favor, meus filhos, me deixem sozinho, me deixem em paz, ou em tormento, nem eu mesmo sei, ou vocês também morrerão, mesmo sendo inocentes, Mas inocentes todos somos, padre, o senhor mesmo disse. Christian e Vicent chegam à igreja e vão até a sancristia. Dá-se um pequeno diálogo em alemão, mas vamos conhecê-lo em português mesmo, Ora vejam só, parece que Deus está do nosso lado, nos oferecendo o banquete completo, Christian, Por favor, se querem fazer alguma coisa, que façam logo, e façam à mim, deixem esses dois inocentes em paz, Vejo que seu coração amoleceu no decorrer dos anos, assim como seus miolos, Fritz. Nessa hora, Pedro e João, sem entender sequer uma palavra, perguntam a padre Frido O que é eles estão falando, padre, por que as armas.

Pedro Tristão e João Simão não tiveram sua curiosidade saciada, tampouco padre Frido teria tempo de responder, já que uma densa e envolvente cortina preta vinda não se sabe de onde, se pôs diante dos olhos de Fritz Döier, ou padre Frido, que é o nome que lhe abrigou a vida que mais valeu a pena, de Pedro Tristão, com aquela vontade de tocar um cocho, e de João Simão, com a angústia de não ter fabricado um, espalhando um leve aroma de rosas e velas. Sem ser capaz de questionar as vontades divinas ou de entender sua lógica, de saber se o que acontece é realmente o melhor, se constatarmos que tudo nessa nossa vida não passa de vaidades, poderíamos perguntar Para que ela serve então, que vaidades são condenáveis e sem elas não há vida.


19.

Vence, enfim, o dia a noite, as malas já estão arrumadas, só esperando o despique da batalha, que resultará no amanhecer, para que possam os alemães partir. E esse amanhecer será diferente, porque o mundo, ou ao menos Liúnas do Norte, amanhecerá com três pessoas a menos, sem um artesão, dos mais competentes e habilidosos, sem um tocador de cocho, cantador de moda e contador de caso, que levava alegrias por onde ia e que parecia estar tomando jeito para o trabalho, e sem um padre, ou sem o padre, já que era o único, se é que Deus assim o considerava. Mas ainda assim, as vidas continuarão em Liúnas do Norte, havendo sempre aquela dose de ajustamento em tudo que se faz, ainda mais agora, que as três pessoas que formavam aquela minoria que não tinha a vida tão regrada e ajustada, já não mais respiravam os ares liunenses, e ainda assim, serão os mesmos os cafés da manhã, os mesmos almoços e jantares, as explorações nas fazendas, que não seria justo nos esquecermos de Zé Silveira e Adelina, que tão sofridas vidas tiveram, e serão os mesmos os rasqueios de cocho nas rodas nas calçadas, as moças desfilando na praça e os moços olhando, e aos domingos de manhã, alguém se lembrará ao menos de tocar o sino, anunciando a missa, só que não haverá ninguém para conduzi-la, só os fiéis estarão lá, rezando, que isso padre Frido ensinou muito bem, e ensinou também que é o caminho para se chegar ao céu, junto com o arrependimento.

Sendo hoje domingo, o sino começa a soar, pontualmente às sete horas, e como ninguém ainda sabia da morte de padre Frido, não havia espanto algum, exceto para os forasteiros, que vão até a igreja, mas ela está vazia… os bancos, o altar, o próprio ar parece mais vazio que o costume, mas mesmo eles, ao entrarem, sentem uma paz e uma serenidade só comparada àquelas dos ingênuos tempos de criança, em que acreditávamos em tudo, tanto que chegaram a acreditar que a igreja estava cheia. Marthe acomoda-se no primeiro banco, quase que pedindo licença a alguém, Christian e Vicent continuam parados na porta da igreja, observando Marthe e a igreja vazia. E só estava vazia para eles que não podiam ver nem ouvir o padre Frido, no altar, iniciando sua missa como sempre, dizendo, Estamos todos aqui reunidos em torno da mesa eucarística como irmãos e irmãs para celebrarmos nossa privilegiada posição de filhos de Deus, e digo que é privilegiada porque agora sei, e não porque li, e digo que se Deus necessitar de braços para ceifar a messe, daremos os nossos, os dois até, que só não damos mais por não os termos em maior número, que todos somos frutos da Sua messe. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e todos respondem, Amém, só que ninguém ouve, porque estes que respondem são Jurema e Gonçalvez Tristão, Maria da Graça e Domingos Simão, juntos, quem seria capaz de adivinhar que não vieram a dar certo aqui iriam dar certo lá, Adelina e Zé Silveira, que embora não tenha sido contado, Deus fez a vontade dos dois que era de ficarem juntos, e Antônio Constante, que de longe olhava para Pedro Tristão afinando o seu cocho, aquele especial, e João Simão, afinando o seu, também especial, já que feito por ele, lá nos céus, que o tempo lá tem outras distâncias e outras medidas, e muitos outros que já tinham deixado esses ares para respirarem os ares mais puros dos reinos do Senhor, para se alimentarem daquele mesmo café da manhã, almoço e jantar de todos os dias, só que agora divinos e eternos.

E quem disser que os ensinamentos de Constante não tinham este objetivo como principal e primeiro, pode estar se arriscando numa blasfêmia, pois os anjos agradecem a chegada desses novos habitantes, e de hoje em diante, já que agora têm um artesão e um tocador nos céus, não mais se limitarão a tocarem suas liras e harpas, e poderão conhecer os prazeres de se tocar uma viola de cocho.